{"id":57941,"date":"2024-09-29T15:52:18","date_gmt":"2024-09-29T18:52:18","guid":{"rendered":"https:\/\/jornadasebprioicprj.com.br\/2024\/?p=57941"},"modified":"2024-09-30T14:32:35","modified_gmt":"2024-09-30T17:32:35","slug":"no-caminho","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/jornadasebprioicprj.com.br\/2024\/no-caminho\/","title":{"rendered":"NO CAMINHO&#8230;"},"content":{"rendered":"<p><em>Elisa Werlang<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<div id=\"attachment_57942\" style=\"width: 360px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-57942\" class=\"wp-image-57942\" src=\"https:\/\/jornadasebprioicprj.com.br\/2024\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/716px-Hieronymus_Bosch_053-210x300.jpg\" alt=\"\" width=\"350\" height=\"500\" srcset=\"https:\/\/jornadasebprioicprj.com.br\/2024\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/716px-Hieronymus_Bosch_053-210x300.jpg 210w, https:\/\/jornadasebprioicprj.com.br\/2024\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/716px-Hieronymus_Bosch_053.jpg 716w\" sizes=\"auto, (max-width: 350px) 100vw, 350px\" \/><p id=\"caption-attachment-57942\" class=\"wp-caption-text\"><em>A extra\u00e7\u00e3o da pedra da loucura<\/em>, Hieronymus Bosch<\/p><\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O pintor holand\u00eas Hieronymus Bosch na virada dos s\u00e9culos XV e XVI, como era comum em sua \u00e9poca, tomou como tema uma opera\u00e7\u00e3o que sobrevive at\u00e9 hoje em nossos tempos. Nela, algu\u00e9m que se apresenta como cirurgi\u00e3o produz um corte superficial e simula a retirada de uma pedra. Se antes havia um louco de pedra, agora temos um homem de um lado e a pedra do outro.<\/p>\n<p>Para que essa opera\u00e7\u00e3o seja eficaz, \u00e9 necess\u00e1rio crer no cirurgi\u00e3o. Mas n\u00e3o s\u00f3. \u00c9 necess\u00e1rio acreditar que a loucura possa ser localiz\u00e1vel. E que pode e deve ser extra\u00edda. O que torna o quadro de Bosch diferente de seus contempor\u00e2neos, motivo pelo qual Foucault o analisa em <em>Hist\u00f3ria da loucura<\/em>, \u00e9 que Bosch ridiculariza as figuras do cirurgi\u00e3o e dos seus assistentes. E, principalmente, porque nele, o que \u00e9 extra\u00eddo n\u00e3o \u00e9 uma pedra, mas um bulbo de tulipa. Isso \u00e9, donde pode advir uma flor.<\/p>\n<p>A poeta argentina Alejandra Pizarnik \u00e9 uma das que foi tocada pelo quadro do pintor, fazendo desse um longo poema que d\u00e1 t\u00edtulo a um dos seus \u00faltimos livros. Ali um momento de virada na sua escrita, mas tamb\u00e9m o fechar de uma porta. Em carta para uma amiga, ela escrever\u00e1 que sente que, depois desse livro, n\u00e3o escrever\u00e1 mais textos aturditos e alucinados \u2013 \u201cMe lamentar? N\u00e3o, afronto as mudan\u00e7as e suas terr\u00edveis consequ\u00eancias\u201d. Ali um longo poema de uma dor aud\u00edvel. Aqui a pedra extra\u00edda, \u201cseu \u00fanico privil\u00e9gio\u201d.<\/p>\n<p>Essa n\u00e3o foi a \u00fanica virada em sua escrita. Nos seus primeiros poemas, ela era marcada por versos que chamavam outros versos, como se faltasse uma palavra e onde o poema mergulhava para um dizer que n\u00e3o se conclui. H\u00e1 depois um segundo tempo que se inaugura e ainda est\u00e1 presente em <em>A extra\u00e7\u00e3o da pedra da loucura<\/em>, no qual o poema se faz em linha reta. Onde o verso \u00e9 um poema e o poema se faz pela inclus\u00e3o de poemas.<\/p>\n<p>Tomando o livro que o precede, <em>Os trabalhos e os dias<\/em>, sua escrita se caracterizava pela presen\u00e7a dos poemas breves. Teoremas n\u00e3o matem\u00e1ticos, como chega a nomear seu tradutor Davis Diniz. Como em \u201cPoema\u201d, t\u00edtulo do poema que abre esse livro, a exig\u00eancia da pureza parece atravessar a escrita, produzindo versos concisos, rigorosos, l\u00edmpidos: pedras preciosas. A palavra se cristaliza em sua instabilidade sem nunca terminar de se dizer. O poema \u00e9 sil\u00eancio perfeito e grito dilacerante. A presen\u00e7a repetitiva de alguns significantes vai se decantando, produzindo um efeito de satura\u00e7\u00e3o significante, que, ao inv\u00e9s de produzir um sentido unificador, signo, produz polifonia. Como \u00e1gua abra\u00e7ando uma pedra e suas resson\u00e2ncias. Seguem alguns poemas desse livro no qual se precipita o sil\u00eancio e a voz; a presen\u00e7a e a aus\u00eancia; a mat\u00e9ria pedra.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>\u201cTua voz\u201d<\/strong><\/p>\n<p>Emboscado na minha escritura<\/p>\n<p>cantas em meu poema<\/p>\n<p>ref\u00e9m de tua doce voz<\/p>\n<p>petrificada em minha mem\u00f3ria<\/p>\n<p>p\u00e1ssaro preso \u00e0 sua fuga.<\/p>\n<p>ar tatuado por um ausente.<\/p>\n<p>rel\u00f3gio que pulsa comigo<\/p>\n<p>para que nunca desperte<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>\u201cPresen\u00e7a\u201d<\/strong><\/p>\n<p>tua voz<\/p>\n<p>neste n\u00e3o poder arrancar as coisas<\/p>\n<p>de meu olhar<\/p>\n<p>elas me despossuem<\/p>\n<p>fazem de mim um barco sobre um rio de pedras<\/p>\n<p>se n\u00e3o \u00e9 tua voz<\/p>\n<p>chuva abandonada em meu sil\u00eancio de febres<\/p>\n<p>tu me desatas os olhos<\/p>\n<p>e por favor<\/p>\n<p>que me fales<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>\u201cDesmem\u00f3ria\u201d<\/strong><\/p>\n<p>Ainda que a voz (seu esquecimento<\/p>\n<p>vertendo-me naufragas que sou eu)<\/p>\n<p>oficia em um jardim petrificado<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Recordo com todas as minhas vidas<\/p>\n<p>Por que esque\u00e7o<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O que desaparece em <em>A extra\u00e7\u00e3o da pedra da loucura<\/em> \u00e9 a palavra exata. O poema se esparra pela p\u00e1gina. Como \u00e1gua sobre a pedra, numa deseconomia de palavras. Elas n\u00e3o faltam. Excedem. Ou, como j\u00e1 disseram, o poema te arrasta para dentro dele, sem garantia de chegar \u00e0 outra margem. Ali uma dor dilacerante. Onde a voz do poema faz barreira ao sil\u00eancio da morte. E onde o sil\u00eancio do poema faz barreira \u00e0 voz da morte. Um poema que vale a pena ouvir.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Alejandra Pizarnik - &quot;Extracci\u00f3n de la piedra de locura&quot; (Parte 1)\" width=\"1200\" height=\"900\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/mGWEtDCm1qk?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p><em>Extracci\u00f3n de la piedra de locura<\/em>, Alejandra Pizarnik (Parte 1)<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Alejandra Pizarnik - &quot;Extracci\u00f3n de la piedra de locura&quot; (Parte 2)\" width=\"1200\" height=\"900\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/sQGEEqSn22k?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p><em>Extracci\u00f3n de la piedra de locura<\/em>, Alejandra Pizarnik (Parte 2)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Elisa Werlang &nbsp; &nbsp; O pintor holand\u00eas Hieronymus Bosch na virada dos s\u00e9culos XV e XVI, como era comum em sua \u00e9poca, tomou como tema uma opera\u00e7\u00e3o que sobrevive at\u00e9 hoje em nossos tempos. 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