{"id":57934,"date":"2024-09-29T15:45:17","date_gmt":"2024-09-29T18:45:17","guid":{"rendered":"https:\/\/jornadasebprioicprj.com.br\/2024\/?p=57934"},"modified":"2024-09-29T15:45:17","modified_gmt":"2024-09-29T18:45:17","slug":"bibliografia-comentada-jose-marcos-moura","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/jornadasebprioicprj.com.br\/2024\/bibliografia-comentada-jose-marcos-moura\/","title":{"rendered":"Bibliografia Comentada &#8211; Jos\u00e9 Marcos Moura"},"content":{"rendered":"<blockquote><p>A interpreta\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 uma quest\u00e3o, n\u00e3o \u00e9 um talvez; \u00e9 a afirma\u00e7\u00e3o de um \u201ch\u00e1\u201d e na extremidade de um \u201cn\u00e3o h\u00e1\u201d. Trata-se menos de mostrar alguma coisa do que de uma aus\u00eancia, que \u00e9 de estrutura: imposs\u00edvel de dizer.<em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p><strong>Miller, J.-A. A palavra que fere. <em>Op\u00e7\u00e3o Lacaniana<\/em>, n. 56\/57, 2010.<\/strong><\/p><\/blockquote>\n<p><strong><em>\u00a0<\/em><\/strong><\/p>\n<p><strong><em>A extra\u00e7\u00e3o nas palavras das pedras da interpreta\u00e7\u00e3o<\/em><\/strong><\/p>\n<p>Nos s\u00e9culos XVI e XVII, nos Pa\u00edses Baixos, existia um procedimento farsesco, uma \u201ccirurgia\u201d em p\u00fablico, uma grande encena\u00e7\u00e3o, conhecida como retirada da pedra da loucura. Esses espet\u00e1culos foram retratados por v\u00e1rios artistas da \u00e9poca \u2013 Pieter Huys, Pieter Bruegel, Pieter Quast, Hieronymus Bosch. A mais conhecida delas est\u00e1 no Museu do Prado, realizada entre 1475-1480 por Hieronymus Bosch, uma obra pict\u00f3rica inclu\u00edda em um conjunto de obras burlescas e sat\u00edricas, que se chama <em>A extra\u00e7\u00e3o da pedra da loucura<\/em>. A proposta deste coment\u00e1rio \u00e9, utilizando essa \u201cextra\u00e7\u00e3o da pedra\u201d como m\u00e9todo, propor um outro sintagma \u2013 <em>a extra\u00e7\u00e3o nas palavras das pedras da interpreta\u00e7\u00e3o<\/em>.<\/p>\n<p>Essa extra\u00e7\u00e3o \u00e9 comum a todos n\u00f3s, que a tudo interpretamos. Somos verdadeiras m\u00e1quinas de interpretar, m\u00e1quinas de extra\u00e7\u00e3o nas palavras das pedras da interpreta\u00e7\u00e3o, ser\u00e3o m\u00e1quinas paranoicas? A \u201cpedra\u201d da interpreta\u00e7\u00e3o, como comenta Tarrab: \u201c[&#8230;] \u00e9 retirada entre o del\u00edrio e a fic\u00e7\u00e3o. Sempre o resultado de nossa debilidade mental, frente ao abrupto da exist\u00eancia, como dizia Lacan, \u2018frente ao real, o mental \u00e9 d\u00e9bil\u2019\u201d.<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\"><sup>[1]<\/sup><\/a><\/p>\n<p>As pedras da interpreta\u00e7\u00e3o, extra\u00eddas das palavras, continuando com Tarrab \u00e0 minha maneira, quando se tratam de interpreta\u00e7\u00f5es anal\u00edticas, elas encontram-se tanto do lado do deciframento quanto do lado do ciframento. O que a extra\u00e7\u00e3o das pedras da interpreta\u00e7\u00e3o na psican\u00e1lise faz \u00e9 \u201creduzir, devastar, enfraquecer, desinflar, reduzir ao essencial, o del\u00edrio ou a fic\u00e7\u00e3o\u201d.<a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\"><sup>[2]<\/sup><\/a> Onde colocamos a interpreta\u00e7\u00e3o? Do lado do decifrar ou do cifrar? A escolha \u00e9 de cada analista a cada momento. Como Miller enfatiza no artigo citado: \u201c[&#8230;] a interpreta\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel [de] ser ensinada, copiada, repetida, a interpreta\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 matematiz\u00e1vel\u201d. O que Tarrab conclui: frente \u00e0 interpreta\u00e7\u00e3o somos todos principiantes.<a href=\"#_ftn3\" name=\"_ftnref3\"><sup>[3]<\/sup><\/a><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p>Nem todas as pedras da interpreta\u00e7\u00e3o retiradas das palavras s\u00e3o elementos de um conjunto, algumas s\u00e3o cifras, s\u00e3o partes, n\u00e3o s\u00e3o elementos de um conjunto. S\u00e3o tigres azuis como extraiu Borges no conto com este t\u00edtulo.<\/p>\n<p>Borges escreve que um professor de l\u00f3gica, estudioso de Spinoza, que gosta de tigres e sonha frequentemente com eles, sonhou com tigres azuis \u2013 \u201cTigres de um azul que jamais havia visto e para o qual n\u00e3o encontrei a palavra justa\u201d.<a href=\"#_ftn4\" name=\"_ftnref4\"><sup>[4]<\/sup><\/a> Um professor escoc\u00eas que se muda para a \u00cdndia, um outro mundo dentro do mundo. Ele encontra nas selvas da \u00cdndia, um outro mundo dentro de um outro mundo, dentro de um mundo. L\u00e1 no delta do Ganges, em uma aldeia na selva. Mais precisamente em uma colina, ao lado dessa aldeia, habitam os tigres azuis. Nessa colina ele encontra o azul brilhante dos seus sonhos, aqueles para os quais n\u00e3o encontrou palavra justa, mas n\u00e3o s\u00e3o tigres, s\u00e3o pedras azuis. Pequenas pedras circulares, todas iguais azuis que brilham na escurid\u00e3o. Em um \u00edmpeto, apanha um punhado delas e as coloca no bolso. De volta \u00e0 sua casa examina o monte de suas pedras, resolveu cont\u00e1-las. Conta feita, contou-as novamente, e de novo; o resultado nunca \u00e9 o mesmo. As pedras se multiplicam e se dividem alheias \u00e0s leis da f\u00edsica. A cont\u00ednua e incessante contagem das pedras apura in\u00fameros resultados diferentes que v\u00e3o de 3 pedras a 417 pedras. \u201cEu olhava fixamente para uma delas, recolhia-a com o polegar e o indicador e depois de separada ela ficava sendo muitas.\u201d<a href=\"#_ftn5\" name=\"_ftnref5\"><sup>[5]<\/sup><\/a><\/p>\n<p>Essas pedras azuis que algumas vezes extra\u00edmos, enquanto analistas, \u201cque lemos no que se diz\u201d, que lemos no ciframento da fala. Essa escrita que implica a homofonia, a gram\u00e1tica e a l\u00f3gica, mas n\u00e3o a l\u00f3gica aristot\u00e9lica, com seu princ\u00edpio da n\u00e3o contradi\u00e7\u00e3o. Essas pedras azuis incont\u00e1veis, que n\u00e3o s\u00e3o elementos de um conjunto, mas partes de um conjunto, abrigadas no conjunto vazio. Presentificados pela letra, os tigres azuis aparecem, n\u00e3o elementos de um conjunto, situados no conjunto vazio, um conjunto que n\u00e3o possui elementos.<a href=\"#_ftn6\" name=\"_ftnref6\"><sup>[6]<\/sup><\/a><\/p>\n<p>Uso, como voc\u00eas j\u00e1 perceberam, essa bela fic\u00e7\u00e3o de Borges, para falar do real, para falar do gozo, do puro real, na express\u00e3o de Horne, <em>o existir<\/em>.<a href=\"#_ftn7\" name=\"_ftnref7\"><sup>[7]<\/sup><\/a> Este existir, essa subst\u00e2ncia gozante apontada no sintagma tigres azuis. \u201cOnde est\u00e1 o real em meio \u00e0s criaturas das palavras que a psican\u00e1lise convoca?\u201d, pergunta Tarrab, citando Miller.<a href=\"#_ftn8\" name=\"_ftnref8\"><sup>[8]<\/sup><\/a><\/p>\n<p>Horne se pergunta: \u201c[&#8230;] como se pode estabelecer um gozo sem significante, um puro existir, no \u00e2mbito de uma opera\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica?\u201d. E continua citando Lacan no <em>Semin\u00e1rio 20<\/em>: \u201c[&#8230;] o que s\u00f3 existe ao n\u00e3o ser. O significante paga com seu ser de significante pelo direito de existir. [&#8230;] Um existir que n\u00e3o \u00e9 o de significante, mas de puro gozo, uma subst\u00e2ncia gozante.\u201d<a href=\"#_ftn9\" name=\"_ftnref9\"><sup>[9]<\/sup><\/a><\/p>\n<p>E \u00e9 Miller que enuncia: interpreta\u00e7\u00e3o anal\u00edtica \u00e9 apof\u00e1tica<a href=\"#_ftn10\" name=\"_ftnref10\"><sup>[10]<\/sup><\/a>, do grego <em>ap\u00f3phasis<\/em> ou <em>ap\u00f3phemi<\/em>, isto \u00e9, algo sem predicados. Enunciar a interpreta\u00e7\u00e3o anal\u00edtica como apof\u00e1tica \u00e9 uma tentativa de descrev\u00ea-la como o que ela n\u00e3o \u00e9. Ou a impossibilidade de dizer o que ela \u00e9. Fazer da linguagem express\u00e3o vis\u00edvel do invis\u00edvel. A imagem de uma experi\u00eancia que culmina na aus\u00eancia de toda imagem, na exclus\u00e3o de qualquer media\u00e7\u00e3o.<a href=\"#_ftn11\" name=\"_ftnref11\"><sup>[11]<\/sup><\/a><\/p>\n<p>Algo que \u201c\u00e9 de Estrutura imposs\u00edvel de dizer\u201d.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<hr \/>\n<h6><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\"><sup>[1]<\/sup><\/a> Tarrab, M. Que interpretacion? <em>El decir Y lo real<\/em>. Buenos Aires: Grama, 2023.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\"><sup>[2]<\/sup><\/a> Tarrab, M. Que interpretacion?<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref3\" name=\"_ftn3\"><sup>[3]<\/sup><\/a> Tarrab, M. Que interpretacion?<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref4\" name=\"_ftn4\"><sup>[4]<\/sup><\/a> Borges, J. L. <em>Nove ensaios dantescos &amp; a mem\u00f3ria de Shakespeare<\/em>. S\u00e3o Paulo: Cia. das Letras.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref5\" name=\"_ftn5\"><sup>[5]<\/sup><\/a> Borges, J. L. <em>Nove ensaios dantescos &amp; a mem\u00f3ria de Shakespeare<\/em>.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref6\" name=\"_ftn6\"><sup>[6]<\/sup><\/a> Vieira, M. A. Preparat\u00f3ria para o XXV Encontro Brasileiro do Campo Freudiano, na EBP Rio de Janeiro. YouTube Canal EBP-Rio, 2024.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref7\" name=\"_ftn7\"><sup>[7]<\/sup><\/a> Horne, B. Cap\u00edtulo 2. <em>O campo uniano<\/em>. Editora Ares, 2022.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref8\" name=\"_ftn8\"><sup>[8]<\/sup><\/a> Tarrab, M. Pr\u00f3logo. <em>O campo uniano<\/em>. Editora Ares, 2022<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref9\" name=\"_ftn9\"><sup>[9]<\/sup><\/a> Horne, B. Cap\u00edtulo 2. <em>O campo uniano<\/em>.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref10\" name=\"_ftn10\"><sup>[10]<\/sup><\/a> Miller, J.-A. A\u00a0palavra\u00a0que\u00a0fere. <em>Op\u00e7\u00e3o Lacaniana<\/em>, n. 56\/57, 2010.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref11\" name=\"_ftn11\"><sup>[11]<\/sup><\/a> CUNHA BEZERRA, C. Neoplatonismo e est\u00e9tica apof\u00e1tica: considera\u00e7\u00f5es a partir da abstra\u00e7\u00e3o.Dispon\u00edvel em: <a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=jvy5Ei-IzwY&amp;t=871s\">https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=jvy5Ei-IzwY&amp;t=871s<\/a>.<\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A interpreta\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 uma quest\u00e3o, n\u00e3o \u00e9 um talvez; \u00e9 a afirma\u00e7\u00e3o de um \u201ch\u00e1\u201d e na extremidade de um \u201cn\u00e3o h\u00e1\u201d. Trata-se menos de mostrar alguma coisa do que de uma aus\u00eancia, que \u00e9 de estrutura: imposs\u00edvel de dizer.\u00a0 Miller, J.-A. A palavra que fere. 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