{"id":57870,"date":"2024-09-18T17:22:09","date_gmt":"2024-09-18T20:22:09","guid":{"rendered":"https:\/\/jornadasebprioicprj.com.br\/2024\/?p=57870"},"modified":"2024-09-18T17:22:09","modified_gmt":"2024-09-18T20:22:09","slug":"seminario-de-orientacao-lacaniana","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/jornadasebprioicprj.com.br\/2024\/seminario-de-orientacao-lacaniana\/","title":{"rendered":"Semin\u00e1rio de Orienta\u00e7\u00e3o Lacaniana"},"content":{"rendered":"<h6>Paula Legey<\/h6>\n<p>O cap\u00edtulo VI do semin\u00e1rio \u201cO ser e o Um\u201d, de Miller \u00e9 um texto denso, ali\u00e1s como esse semin\u00e1rio inteiro, e requer desdobramentos. Miller o far\u00e1 ao longo do ano de 2011, 2012 e, certamente, isso acontecer\u00e1 tamb\u00e9m, no SOL, ao longo desse ano. Sarita conseguiu trazer alguns dos pontos fundamentais. Eu queria trazer aqui algumas quest\u00f5es que me marcaram no texto do Miller e no recorte da Sarita, e que me fizeram pensar no tema que estamos trabalhando nas Jornadas Cl\u00ednicas da EBP &#8211; Rio e do ICP-RJ desse ano, que, como voc\u00eas devem saber, tem como tema \u201cA palavra e a pedra- interpreta\u00e7\u00e3o em an\u00e1lise\u201d. Nossas Jornadas t\u00eam como a proposta enfatizar a cl\u00ednica e especialmente a interpreta\u00e7\u00e3o, como o que a psican\u00e1lise tem de espec\u00edfico com rela\u00e7\u00e3o aos outros discursos, especialmente o discurso do mestre. O fundamental nessas Jornadas, que o discurso anal\u00edtico tem de decisivamente diferente com rela\u00e7\u00e3o aos outros discursos, \u00e9 que ele, como diz o Lacan, exclui a domina\u00e7\u00e3o. O discurso da domina\u00e7\u00e3o, por excel\u00eancia, \u00e9 o discurso do mestre. N\u00e3o se trata de se opor ao discurso do mestre, o que seria propor outra forma de domina\u00e7\u00e3o, mas de agir a partir de outro lugar, o lugar de objeto.<\/p>\n<p>Quando est\u00e1vamos pensando o nome das Jornadas eu pensei v\u00e1rias vezes em \u201cO fracasso do Inconsciente\u201d. Talvez fosse um t\u00edtulo esquisito e n\u00e3o foi adiante. Mas por que \u201co fracasso do inconsciente\u201d? Porque o inconsciente, de alguma forma, \u00e9 o pr\u00f3prio fracasso: as forma\u00e7\u00f5es do inconsciente, o sintoma, s\u00e3o pedras no caminho, que atrapalham o \u201cbom funcionamento\u201d do eu, um bom desempenho com rela\u00e7\u00e3o \u00e0quilo que se espera de si mesmo.\u00a0 Ao mesmo tempo, \u00e9 a\u00ed que encontramos, n\u00e3o tanto a nossa pedra preciosa, mas o nosso material.<\/p>\n<p>No semin\u00e1rio 11, de onde Miller traz esse debate todo com Lacan sobre o ser, Lacan traz essa ideia do inconsciente como pedra no caminho, como trope\u00e7o, como achado, como algo que se abre para voltar a se fechar numa pulsa\u00e7\u00e3o temporal. Ele diz:<\/p>\n<blockquote><p>A causa do inconsciente \u2013 e voc\u00eas bem veem que aqui o termo causa deve ser tomado em sua ambiguidade, causa a ser sustentada, mas tamb\u00e9m fun\u00e7\u00e3o da causa no n\u00edvel do inconsciente \u2013 essa causa deve ser fundamentalmente concebida como a causa perdida. E \u00e9 a \u00fanica chance que temos de ganh\u00e1-la.\u201d (Lacan, 1964, p.123).<\/p><\/blockquote>\n<p>Ent\u00e3o, \u00e9 nesse sentido, do discurso anal\u00edtico como aquele que exclui a domina\u00e7\u00e3o que estamos esse ano abordando a interpreta\u00e7\u00e3o, e pelo menos ao que me parece, \u00e9 nesse sentindo que estamos construindo nossas Jornadas. Nosso esfor\u00e7o \u00e9 de falar algo sobre esse lugar do discurso anal\u00edtico, ou transmitir algo desse lugar.<\/p>\n<p>Em outro texto de Miller, publicado como \u201cUma fantasia, ele diz da pr\u00e1tica lacaniana, que ela tem por princ\u00edpio um \u201cisso falha\u201d, avessa ao discurso do \u201cisso funciona\u201d que, \u00e9 claro, faz sucesso. E Miller diz que a pr\u00e1tica lacaniana exclui a no\u00e7\u00e3o de sucesso.<\/p>\n<p>Mas vamos ao texto de hoje, mais diretamente.<\/p>\n<p>&#8211; Como, Sarita nos disse, Miller sustenta uma diferen\u00e7a fundamental entre o ser e o existir. Tem um percurso nessa li\u00e7\u00e3o do Miller de algo que se passa no semin\u00e1rio 11 para uma constru\u00e7\u00e3o que s\u00f3 chegou a ter um peso maior no ensino de Lacan no semin\u00e1rio 19, um percurso que vai do Ser ao Um.<\/p>\n<p>Miller conta que, na \u00e9poca do Seminario livro 11, ele interrogou Lacan sobre seu uso do termo ontologia. Ele diz que foi mal interpretado por Lacan, que colocou a palavra ontologia na boca dele, Miller, mas que era usada pelo Lacan em v\u00e1rias ocasi\u00f5es. Mas n\u00e3o \u00e9 bem isso que importa agora.<\/p>\n<p>O que \u00e9 importante \u00e9 que tem uma tens\u00e3o nesse texto sobre o lugar da ontologia no ensino do Lacan. Miller diz que o Lacan teve um problema com a ontologia.<\/p>\n<p>Na ocasi\u00e3o do Semin\u00e1rio 11, Lacan recusa o termo ontologia, dizendo que o estatuto do inconsciente \u00e9, antes de tudo \u00e9tico. \u00c9 uma \u00e9tica, podemos dizer, porque n\u00e3o existe inconsciente se as forma\u00e7\u00f5es do Inconsciente n\u00e3o forem lidas como tais. O ato falho \u00e9 apenas um erro, os sonhos s\u00e3o apenas descargas aleat\u00f3rias e por a\u00ed vai. Mas nesse texto aqui, o Miller diz que h\u00e1 uma ontologia lacaniana, uma teoria do ser em Lacan. Essa ontologia seria congruente com a linguagem em sua vertente de comunica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Ao mesmo tempo, Miller fala de uma virada no ensino de Lacan com rela\u00e7\u00e3o \u00e0 ontologia, uma mudan\u00e7a de posi\u00e7\u00e3o que acontece com o semin\u00e1rio 19 e com a no\u00e7\u00e3o de H\u00e1-Um. A\u00ed Lacan deixa a ontologia em favor de uma henologia. Miller faz essa separa\u00e7\u00e3o bem did\u00e1tica:<\/p>\n<p>&#8211; Ser, do lado da ontologia, da ess\u00eancia<\/p>\n<p>&#8211; H\u00e1-um, do lado da henologia, da exist\u00eancia<\/p>\n<p>Podemos tranquilamente falar de algo que n\u00e3o existe, a linguagem se presta a isso. J\u00e1 a exist\u00eancia \u00e9 tamb\u00e9m da ordem do significante, mas n\u00e3o \u00e9 da ordem do sentido, da comunica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&#8211; Outro ponto: Miller diz que Lacan nos d\u00e1 o segredo da ontologia, o que aconteceria apenas nesse outro momento de seu ensino, em torno do Semin\u00e1rio livro 19 (Miller fala que Lacan evita dar peso \u00e0s rupturas em seu ensino, preferindo a ideia de deforma\u00e7\u00f5es topol\u00f3gicas de seus sistemas, sem descontinuidade).<\/p>\n<p>O segredo da ontologia seria ent\u00e3o que o ser n\u00e3o passa de semblante, e mesmo o objeto<em> a<\/em> \u00e9 um semblante de ser. Como lembrou Sarita, Miller diz que Lacan joga a toalha com rela\u00e7\u00e3o ao objeto <em>a<\/em> quando formula que o objeto <em>a<\/em> n\u00e3o pode se sustentar na abordagem do real. Ele tentou dizer que o objeto<em> a<\/em> \u00e9 real, mas n\u00e3o conseguiu, ele joga a toalha.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&#8211; terceiro ponto: Retomando a pergunta da Sarita, \u201cse o objeto da Matem\u00e1tica n\u00e3o se comove pela Ret\u00f3rica, se comove pela l\u00f3gica?\u201d\u00a0 Miller aproxima o objeto da matem\u00e1tica do real com que lidamos em nossa pr\u00e1tica. A pergunta ent\u00e3o seria se o real se move pela l\u00f3gica. E isso nos aproxima de toda a constru\u00e7\u00e3o de Miller nesse cap\u00edtulo, e que n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 desse texto, sobre como a palavra pode mover o gozo. E que Sarita localizou como a pergunta fundamental desse cap\u00edtulo. Inicialmente, quando Lacan, como afirma Miller, atribui o gozo ao imagin\u00e1rio, isso n\u00e3o seria um problema. Mas quando ele opera uma disjun\u00e7\u00e3o entre ICS e Isso, e localiza o gozo do lado do real do sintoma, isso se torna um grande problema. A coisa n\u00e3o fala, como pode ser movida?<\/p>\n<p>O objeto <em>a<\/em> seria o truque inventado por Lacan como resposta \u00e0 disjun\u00e7\u00e3o entre \u00a0linguagem e gozo, um artificio. Nesse sentido o objeto n\u00e3o \u00e9 tanto a pedra no caminho, mas uma solu\u00e7\u00e3o. Mas o objeto <em>a<\/em> \u00e9 um semblante de ser. O que se trata quando se toca no Um n\u00e3o \u00e9 da ordem do ser. E n\u00e3o pode ser tocado pela linguagem como significa\u00e7\u00e3o. Isso nos leva ao \u00faltimo ponto<\/p>\n<p>-A interpreta\u00e7\u00e3o \u00e9 da ordem da fala, mas n\u00e3o apenas. \u00c9 tamb\u00e9m da ordem do sil\u00eancio.<\/p>\n<p>A interpreta\u00e7\u00e3o seria da ordem da Ret\u00f3rica? N\u00e3o me parece. E apesar de ter aproximado a opera\u00e7\u00e3o anal\u00edtica da ret\u00f3rica quando afirma que o psicanalista tem que se haver com uma coisa que se comove por meio da fala, isso se refere a um momento no ensino de Lacan anterior \u00e0 cis\u00e3o entre ICS e Isso, e anterior \u00e0 revela\u00e7\u00e3o do segredo da ontologia, de que o ser n\u00e3o passa de semblante.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o alguma coisa se comove por meio da fala, mas n\u00e3o tudo. Quando estamos avisados desse limite do ser, quando o Um da exist\u00eancia que tem como material o gozo se mostra rebelde \u00e0 significa\u00e7\u00e3o, como o objeto matem\u00e1tico, ent\u00e3o precisamos dar adeus \u00e0 ret\u00f3rica.<\/p>\n<p>A interpreta\u00e7\u00e3o ocupa um lugar de litoral, conjugando palavra e pedra, gozo e linguagem, na medida em que, ao mesmo tempo que opera com a palavra, est\u00e1 avisada do sil\u00eancio, Miller diz, isso est\u00e1 no argumento das nossas jornadas, que ela vale pelo que guarda de sil\u00eancio. A interpreta\u00e7\u00e3o se serve da palavra em sua materialidade de gozo. A interpreta\u00e7\u00e3o vale tanto pelo sentido, mas pelo limite. Nisso ela estabelece uma orienta\u00e7\u00e3o. E uma orienta\u00e7\u00e3o em torno desse sil\u00eancio do real. Como o real nos orienta?<\/p>\n<hr \/>\n<h6>Refer\u00eancias:<\/h6>\n<h6>Lacan, J. O Semin\u00e1rio, livro 11: Os quatro conceitos fundamentais da psican\u00e1lise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1964\/1998.<\/h6>\n<h6>Lacan, J. O Semin\u00e1rio, livro 19: &#8230; Ou pior. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1971-1972\/2012.<\/h6>\n<h6>Miller, J-A. (2004) Uma fantasia. Dispon\u00edvel em <a href=\"https:\/\/2012.congresoamp.com\/pt\/template.php?file=Textos\/Conferencia-de-Jacques-Alain-Miller-en-Comandatuba.html\">https:\/\/2012.congresoamp.com\/pt\/template.php?file=Textos\/Conferencia-de-Jacques-Alain-Miller-en-Comandatuba.html<\/a><\/h6>\n<h6>Miller, O Um sozinho (2011-2021).In\u00e9dito.<\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Paula Legey O cap\u00edtulo VI do semin\u00e1rio \u201cO ser e o Um\u201d, de Miller \u00e9 um texto denso, ali\u00e1s como esse semin\u00e1rio inteiro, e requer desdobramentos. Miller o far\u00e1 ao longo do ano de 2011, 2012 e, certamente, isso acontecer\u00e1 tamb\u00e9m, no SOL, ao longo desse ano. Sarita conseguiu trazer alguns dos pontos fundamentais. 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