{"id":57705,"date":"2024-07-22T06:11:35","date_gmt":"2024-07-22T09:11:35","guid":{"rendered":"https:\/\/jornadasebprioicprj.com.br\/2024\/?p=57705"},"modified":"2024-07-22T06:11:43","modified_gmt":"2024-07-22T09:11:43","slug":"sobre-a-convidada-gabriela-grinbaum","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/jornadasebprioicprj.com.br\/2024\/sobre-a-convidada-gabriela-grinbaum\/","title":{"rendered":"SOBRE A CONVIDADA GABRIELA GRINBAUM"},"content":{"rendered":"<p>SOBRE A CONVIDADA GABRIELA GRINBAUM<\/p>\n<p><em>Ana Beatriz Zimmermann Guimar\u00e3es e Isabel do R\u00eago Barros Duarte<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/jornadasebprioicprj.com.br\/2024\/wp-content\/uploads\/2024\/07\/GABRIELA_GRINBAUM.mp4\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone wp-image-57700 size-full\" src=\"https:\/\/jornadasebprioicprj.com.br\/2024\/wp-content\/uploads\/2024\/07\/vodeo_gabriela_grimbaum.jpg\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"358\" srcset=\"https:\/\/jornadasebprioicprj.com.br\/2024\/wp-content\/uploads\/2024\/07\/vodeo_gabriela_grimbaum.jpg 600w, https:\/\/jornadasebprioicprj.com.br\/2024\/wp-content\/uploads\/2024\/07\/vodeo_gabriela_grimbaum-300x179.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 600px) 100vw, 600px\" \/><\/a><\/p>\n<p>\u201cFazer falar as pedras\u201d<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Para apresentar nossa convidada, Gabriela Grinbaum, escolhemos dois trechos de seu testemunho de passe publicado na revista <em>Arteira<\/em>, em novembro de 2015.<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">[1]<\/a> Dois trechos, duas interpreta\u00e7\u00f5es, dois momentos diferentes da an\u00e1lise, dois efeitos diversos dessas interpreta\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>1.<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Minha primeira an\u00e1lise come\u00e7ou aos 18 anos, tomada pela d\u00favida entre ser uma atriz ou continuar o curso de psicologia.<\/p>\n<p>Com a volta da democracia, meu pai abriu um teatro em San Telmo, o que dificultou meus la\u00e7os com alguns colegas de teatro. Aos 19 anos, estreei <em>Ant\u00edgona<\/em> numa vers\u00e3o de Anouilh. Ao sair do Teatro Colonial, esperei pelas palavras de meu pai, as \u00fanicas que me importavam. E ele me disse: \u201cTalvez tua voz n\u00e3o seja suficiente para o teatro\u201d. Toda felicidade que havia sentido desde minha escolha em interpretar esse personagem e a felicidade durante toda a apresenta\u00e7\u00e3o desmoronaram naquele instante. E a cada dia passei a ter menos voz. A afonia era uma parte de mim. \u00c9 verdade que eu sempre fui rouca, e meu pai me dizia que eu parecia com a Graciela Borges, e eu gostava disso porque ele gostava dela. Mas agora era diferente. O brilho de minha rouquid\u00e3o tornou-se opaco, e eu n\u00e3o poderia ser uma boa atriz.<\/p>\n<p>Fui \u00e0 minha sess\u00e3o e minha analista disse: \u201cVejo que a voz do teu pai te deixou sem voz\u201d. Isso foi suficiente para que a afonia desaparecesse. Foi assim ou algo parecido e, possivelmente, pelo tempo transcorrido, as coisas foram um pouco romanceadas. (<em>Arteira: Revista de Psican\u00e1lise<\/em>, n. 7, 2015, p. 148-149)<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>2.<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O n\u00e3o dormir conduz no tratamento a uma lembran\u00e7a infantil\u00edssima, para usar um termo muito utilizado no momento atual e, al\u00e9m disso, que me \u00e9 familiar, de ir ver meu pai durante as noites para certificar-me de que respirava, prestando aten\u00e7\u00e3o no movimento de sua barriga. A escurid\u00e3o me angustiava por alguns momentos quando pensava que ele estava morto.<\/p>\n<p>Na an\u00e1lise, localiza-se o vivificar do pai morto, n\u00e3o o n\u00e3o dormir, mas o n\u00e3o deixar o outro dormir, e, junto a isso, conseguir despertar o outro at\u00e9 ficar empapada de suor pelo esfor\u00e7o. Um pai extremamente culto, para quem eu era, indiscutivelmente, a favorita.<\/p>\n<p>A \u00fanica que conseguia desviar sua aten\u00e7\u00e3o dos livros era eu. Reparava em mim. T\u00e3o culto como silencioso. Palavras tinham que ser arrancadas dele. E eu me encarregava de animar a festa todos os dias, todo o tempo, sempre com alguma coisa para contar-lhe, sempre fazendo com que ele me contasse algo: \u201cE afinal como termina <em>La cantante calva<\/em>?\u201d \u201cGostas mais de Ionesco ou Pirandello? Por que tu falas que Ibsen era feminista?\u201d Eu sabia que bot\u00e3o apertar para faz\u00ea-lo falar. Satisfa\u00e7\u00e3o extenuante. E, assim, tamb\u00e9m com o outro, o <em>partenaire<\/em>, o analista.<\/p>\n<p>E, assim, dirijo-me ao meu terceiro analista, algu\u00e9m que encarnava o lugar do pai vivo, o pai que n\u00e3o dorme nunca. Mesmo assim, havia que mant\u00ea-lo acordado. Em uma ocasi\u00e3o, para minha desgra\u00e7a, um colega da EOL me conta que este mesmo analista havia dormido durante uma sess\u00e3o.<\/p>\n<p>Dobro a aposta. A cada vez falava mais sobre algo que o interessava, mais sobre o que o divertia, mais sobre o que o despertava. Finalmente, uma interven\u00e7\u00e3o: \u201cVoc\u00ea exagera para despertar mais interesse no outro\u201d. Envergonho-me como nunca. Revelava-se minha posi\u00e7\u00e3o fantasm\u00e1tica.<\/p>\n<p>Fazia tempo que isso me pertencia, nas aulas que dava na faculdade, nas reuni\u00f5es que organizava em casa, nas jornadas da Escola, com os amigos, inclusive, com certos pacientes que se encontravam adormecidos. Nessa mesma s\u00e9rie, \u00e0s vezes me queixava na an\u00e1lise do esfor\u00e7o que implicava atender certos pacientes que n\u00e3o falavam e que me eram encaminhados logo ap\u00f3s experi\u00eancias frustradas: \u201cPorque eu fa\u00e7o falar at\u00e9 as pedras\u201d.<\/p>\n<p>Meu analista festeja e retruca: \u201cFazer falar as pedras, esse \u00e9 teu tra\u00e7o\u201d. Isso produziu uma passagem do excesso de gozo a um gozo amistoso, estabelecendo uma homeostase e se tornando um prazer. (<em>Arteira: Revista de Psican\u00e1lise<\/em>, n. 7, 2015, p. 151-152)<\/p>\n<hr \/>\n<h5><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> Texto completo publicado em <em>Arteira: Revista de Psican\u00e1lise<\/em>, n. 7, nov. 2015. Florian\u00f3polis: Escola Brasileira de Psican\u00e1lise \u2013 Se\u00e7\u00e3o Santa Catarina. Passe, Testemunho, Gabriela Grinbaum, p. 145-153. Dispon\u00edvel em: <a href=\"http:\/\/revistaarteira.com.br\/images\/pdf\/Arteira-7.pdf\">http:\/\/revistaarteira.com.br\/images\/pdf\/Arteira-7.pdf<\/a>. Acesso em: 19 jul. 2024.<\/h5>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>SOBRE A CONVIDADA GABRIELA GRINBAUM Ana Beatriz Zimmermann Guimar\u00e3es e Isabel do R\u00eago Barros Duarte &nbsp; \u201cFazer falar as pedras\u201d &nbsp; Para apresentar nossa convidada, Gabriela Grinbaum, escolhemos dois trechos de seu testemunho de passe publicado na revista Arteira, em novembro de 2015.[1] Dois trechos, duas interpreta\u00e7\u00f5es, dois momentos diferentes da an\u00e1lise, dois efeitos diversos&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[520],"tags":[],"class_list":["post-57705","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-textos","category-520","description-off"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/jornadasebprioicprj.com.br\/2024\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/57705","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/jornadasebprioicprj.com.br\/2024\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/jornadasebprioicprj.com.br\/2024\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/jornadasebprioicprj.com.br\/2024\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/jornadasebprioicprj.com.br\/2024\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=57705"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/jornadasebprioicprj.com.br\/2024\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/57705\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":57706,"href":"https:\/\/jornadasebprioicprj.com.br\/2024\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/57705\/revisions\/57706"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/jornadasebprioicprj.com.br\/2024\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=57705"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/jornadasebprioicprj.com.br\/2024\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=57705"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/jornadasebprioicprj.com.br\/2024\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=57705"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}