{"id":57608,"date":"2024-06-02T05:13:28","date_gmt":"2024-06-02T08:13:28","guid":{"rendered":"https:\/\/jornadasebprioicprj.com.br\/2024\/?p=57608"},"modified":"2024-08-31T05:48:29","modified_gmt":"2024-08-31T08:48:29","slug":"desapegar-o-discurso-do-mestre","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/jornadasebprioicprj.com.br\/2024\/desapegar-o-discurso-do-mestre\/","title":{"rendered":"DESAPEGAR O DISCURSO DO MESTRE"},"content":{"rendered":"<h6><em>Isabel do R\u00eago Barros Duarte<\/em><\/h6>\n<p>Sa\u00ed das Jornadas do ano passado decidida a me oferecer para coordenar as pr\u00f3ximas e tive o prazer de ser muito bem recebida pelas diretoras da EBP-Rio, Maria In\u00eas Lamy, e do ICP-RJ, Marcia Zucchi. A raz\u00e3o dessa decis\u00e3o foi que tive um pouco de clareza do que gostaria de assistir no ano seguinte, como uma esp\u00e9cie de desembocadura dos \u00faltimos anos de Jornadas do Rio. Gostaria de ouvir mais casos cl\u00ednicos, discutidos por toda a nossa comunidade, e n\u00e3o apenas nos f\u00f3runs menores que se formam nas mesas simult\u00e2neas &#8211; que, ali\u00e1s sempre s\u00e3o a minha parte preferida nos eventos do Campo Freudiano. E gostaria que se falasse sobre o que, na primeira conversa com Ana Beatriz, com quem tenho o prazer de dividir essa coordena\u00e7\u00e3o, nomeamos de \u201cfeij\u00e3o com arroz\u201d da psican\u00e1lise. \u201cFeij\u00e3o com arroz\u201d de jeito nenhum no sentido do que \u00e9 simples, f\u00e1cil ou banal (c\u00e1 entre n\u00f3s eu n\u00e3o sei fazer feij\u00e3o, acho dific\u00edlimo), mas sim no sentido do que \u00e9 b\u00e1sico ou fundamental. Desde aquele momento, Ana Beatriz j\u00e1 tinha a ideia de falar sobre a interpreta\u00e7\u00e3o. Eu fui chegando a isso um pouco depois.<\/p>\n<p>Ao estilo <em>making of <\/em>que propomos hoje para este Lan\u00e7amento, vou falar das duas vias como as Jornadas e eu chegamos ao tema da interpreta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A primeira foi a partir de uma decis\u00e3o logo na nossa primeira reuni\u00e3o com as diretorias e os conselhos da EBP-Rio e do ICP: que far\u00edamos estas Jornadas conversarem com o XXV EBCF, para garantir a conex\u00e3o da EBP-Rio com a EBP, e para nos mantermos com refer\u00eancias e leituras condizentes com o trabalho anual proposto pela EBP, podendo nos debru\u00e7ar sobre o tema e a bibliografia das Jornadas sem cair no excesso de tarefas. Isso nos levou imediatamente ao \u00faltimo cap\u00edtulo do <em>Semin\u00e1rio 19<\/em> de Lacan, intitulado, justamente, \u201cOs corpos aprisionados pelo discurso\u201d, refer\u00eancia de base do Encontro Brasileiro.<\/p>\n<p>Partimos da quest\u00e3o da qual n\u00e3o podemos nem devemos escapar, e que nos mant\u00e9m no mesmo rastro das Jornadas dos anos anteriores, mas que podemos formular de diferentes maneiras.<\/p>\n<p>Aqui, formulamos com Lacan no <em>Semin\u00e1rio 19<\/em>: se, \u201cno discurso do mestre\/senhor, voc\u00eas, como corpos, est\u00e3o petrificados\u201d<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">[1]<\/a>, como funciona o discurso anal\u00edtico como o avesso disso?<\/p>\n<p>A petrifica\u00e7\u00e3o, ele nos diz, \u00e9 efeito do tamponamento da hi\u00e2ncia \u201centre as fun\u00e7\u00f5es de discurso e o suporte corporal\u201d<a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\">[2]<\/a>, e esta hi\u00e2ncia entre discurso e corpo \u00e9 que se faz necess\u00e1ria para localizar a fun\u00e7\u00e3o do semblante. Ent\u00e3o, no avesso desse tamponamento, \u201co analista, como corpo, [&#8230;], instala o objeto <em>a<\/em> no lugar do semblante. [&#8230;] ele nos permite apreender o que vem a ser o semblante\u201d.<a href=\"#_ftn3\" name=\"_ftnref3\">[3]<\/a> De um lado, ent\u00e3o, a rigidez da est\u00e1tua de pedra, do outro, o molejo do semblante.<\/p>\n<p>Para isto, segue Lacan, \u00e9 preciso que o analista se forme em distinguir o enchimento, o tamponamento desse intervalo, dessa hi\u00e2ncia. E isto para perceber que o que deve ser introduzido a\u00ed, em vez dos \u201cbons sentimentos\u201d, que seriam os instrumentos petrificadores do discurso do mestre (como os olhos da Medusa, poder\u00edamos dizer), \u201clidamos aqui com outra coisa, que tem nome: a interpreta\u00e7\u00e3o\u201d.<a href=\"#_ftn4\" name=\"_ftnref4\">[4]<\/a> A interpreta\u00e7\u00e3o, entendo, seria o que requer supor aberto e ao mesmo tempo o que abre o intervalo entre corpo e discurso, fazendo entrar o arejamento do semblante. Podemos vislumbrar a\u00ed os efeitos desse arejamento n\u00e3o s\u00f3 para um sujeito, mas tamb\u00e9m no la\u00e7o social.<\/p>\n<p>A segunda via diz respeito mais especificamente ao meu percurso, especialmente atrav\u00e9s das Jornadas de uns anos para c\u00e1. E para tentar transmitir algo disso vou me utilizar de um texto que, no entanto, s\u00f3 encontrei <em>a posteriori<\/em>. Tomara que n\u00e3o seja uma volta grande demais.<\/p>\n<p>Trata-se do curso de Miller de 2008 intitulado em portugu\u00eas \u201cCoisas de fineza em psican\u00e1lise\u201d. Este curso, assombrosamente atual, parte de uma constata\u00e7\u00e3o por parte de Miller de sua responsabilidade na confus\u00e3o entre psican\u00e1lise e terap\u00eautica que rondava o Campo Freudiano na \u00e9poca da explos\u00e3o dos CPCTs (Centros Psicanal\u00edticos de Consulta e Tratamento). Miller demonstra aqui que a psican\u00e1lise pode desaparecer por sua complac\u00eancia ao discurso do mestre, que invadiria a cidadela da psican\u00e1lise como um cavalo de Troia.<\/p>\n<p>Na terceira li\u00e7\u00e3o do Curso, Miller se pergunta qual \u00e9 o afeto que conv\u00e9m ao analista. Seria a fleuma (\u201ccomportamento de quem n\u00e3o sente nenhuma emo\u00e7\u00e3o ou n\u00e3o deixa transparecer sentimento ou perturba\u00e7\u00e3o alguma; frieza, impassibilidade\u201d \u2013 dicion\u00e1rio Oxford), pr\u00f3xima demais da apatia? A prop\u00f3sito disso, Miller exemplifica com uma anedota, retirada do livro de uma jornalista, em que \u201co paciente chega ao consult\u00f3rio do analista, ap\u00f3s um acidente muito grave, completamente entrevado, mancando, com um bra\u00e7o na tipoia, uma muleta, o rosto inchado, e o analista, sem dar uma palavra, lhe mostra o div\u00e3 sem lhe perguntar coisa alguma\u201d. Existem os estere\u00f3tipos do analista impass\u00edvel, impass\u00edvel ao corpo acidentado, impass\u00edvel aos efeitos das enchentes, impass\u00edvel \u00e0 monocrom\u00e1tica ao seu redor. Mas n\u00e3o, n\u00e3o \u00e9 a fleuma o afeto que conv\u00e9m ao analista, diz Miller.<\/p>\n<p>Seria ent\u00e3o o entusiasmo o afeto que lhe conv\u00e9m? Nada disso. Primeira surpresa. Eu mesma me vi tantas vezes entusiasmada com a psican\u00e1lise, especialmente em espa\u00e7os coletivos como as Jornadas, especialmente em jornadas dos \u00faltimos anos!<\/p>\n<p>Mas, aten\u00e7\u00e3o! O entusiasmo, alerta Miller, \u00e9 um: \u201cChegamos l\u00e1! Pronto!\u201d E onde chegamos? <em>En theos<\/em>: em Deus. Miller cita Jean-Jacques Rousseau: \u201cO entusiasmo \u00e9 o \u00faltimo grau da paix\u00e3o. Quando ela est\u00e1 no seu m\u00e1ximo, v\u00ea seu objeto perfeito: ela, ent\u00e3o, faz dele seu ideal; coloca-o no c\u00e9u\u201d. E liga essa frase ao que disse Lacan sobre o objeto <em>a<\/em> ser levado ao z\u00eanite social pelo mestre contempor\u00e2neo. Nos aproximamos ent\u00e3o da ideia de que o entusiasmo, assim como os bons sentimentos acima, poderia servir ao discurso do mestre tamponando a hi\u00e2ncia entre corpo e discurso, isto \u00e9, impedindo que o objeto fa\u00e7a sua fun\u00e7\u00e3o de semblante.<\/p>\n<p>Nem fleuma nem entusiasmo, ent\u00e3o que afeto conv\u00e9m ao analista, afinal? O desapego, chega Miller. Segunda surpresa. Ent\u00e3o temos que desapegar do corpo acidentado, dos efeitos das enchentes ou da monocrom\u00e1tica segregadora ao nosso redor?<\/p>\n<p>Miller define o desapego de uma forma muito precisa: \u201co desapego \u00e9 a dist\u00e2ncia que voc\u00eas, como analistas, introduzem entre o significante e o significado\u201d.<a href=\"#_ftn5\" name=\"_ftnref5\">[5]<\/a> \u201cOu seja, \u00e9 reconduzir o significante \u00e0 sua nudez, ali onde n\u00e3o se sabe o que isso quer dizer para o outro\u201d.<a href=\"#_ftn6\" name=\"_ftnref6\">[6]<\/a><\/p>\n<p>Assim, o analista precisa n\u00e3o saber qual significado um significante tem para o outro. Parece \u00f3bvio dito assim, n\u00e9? E \u00e9. Mas ainda assim n\u00e3o \u00e9 garantido que consigamos fazer isso sempre com todos os pacientes e muito menos no debate pol\u00edtico. No debate pol\u00edtico, somos ainda mais levados a supor o que \u00e9 o bom, o que \u00e9 o mau, o que \u00e9 o bem, o que \u00e9 o mal. E n\u00e3o desapegar disso, justamente, j\u00e1 \u00e9 ser capturado pelo discurso do mestre que petrifica. J\u00e1 \u00e9 tamponar essa outra dist\u00e2ncia, a qual Miller se refere aqui: entre significante e significado.<\/p>\n<p>Enfim, Miller conclui esta li\u00e7\u00e3o \u2013 e eu tamb\u00e9m concluo essa fala \u2013 desembocando justamente no tema da interpreta\u00e7\u00e3o. Se n\u00e3o podemos saber o que um significante significa para o outro, n\u00e3o podemos usar a express\u00e3o \u201cfalar a l\u00edngua do Outro\u201d sem come\u00e7ar aprendendo a l\u00edngua do Outro. Partimos do fato de que nos falam uma l\u00edngua estrangeira. E a forma atrav\u00e9s da qual podemos aprend\u00ea-la \u00e9 localizando o que a causa. \u00c9 isso que significa, segundo Miller, o aforismo de Lacan, segundo o qual a interpreta\u00e7\u00e3o visa \u00e0 causa de desejo. \u201cSignifica que a interpreta\u00e7\u00e3o visa ao gozo, ao mais-de-gozar, que \u00e9 o princ\u00edpio e a mola do sentido [&#8230;] n\u00e3o se trata de substituir um sentido por outro\u201d.<a href=\"#_ftn7\" name=\"_ftnref7\">[7]<\/a><\/p>\n<p>Chegamos ao mesmo ponto acima, do <em>Semin\u00e1rio 19<\/em>. A interpreta\u00e7\u00e3o aponta para a causa, <em>a<\/em>. E \u00e9 a\u00ed mesmo que produz a dist\u00e2ncia entre significante e significado, ao mesmo tempo em que depende dela para se efetivar.<\/p>\n<p>Depois dessa volta que precisei fazer, queria concluir dizendo que a escolha do tema e o acento mais generalizado na cl\u00ednica t\u00eam esse objetivo para mim nestas Jornadas. Nem ap\u00e1ticos nem entusiastas, mas sim poder desapegar o discurso do mestre. Digo desapegar <em>o<\/em> discurso do mestre, porque desapegar <em>do<\/em> discurso do mestre seria um contrassenso. Desapegar o discurso do mestre como uma forma de arej\u00e1-lo, criando hi\u00e2ncia em seu interior, j\u00e1 que com ele temos que viver, e com o mal-estar inevit\u00e1vel que isso nos imp\u00f5e.<\/p>\n<p>Desapegar para despetrificar, ainda que parcialmente.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<hr \/>\n<h6><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> Lacan, J. (1971-1972). <em>O semin\u00e1rio, livro 19<\/em>: &#8230;ou pior. Rio de Janeiro: Zahar, 2012, p. 220.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">[2]<\/a> Lacan, J. <em>O semin\u00e1rio, livro 19<\/em>: &#8230;ou pior, p. 221.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref3\" name=\"_ftn3\">[3]<\/a> Lacan, J. <em>O semin\u00e1rio, livro 19<\/em>: &#8230;ou pior, p. 222.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref4\" name=\"_ftn4\">[4]<\/a> Lacan, J. <em>O semin\u00e1rio, livro 19<\/em>: &#8230;ou pior, p. 223.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref5\" name=\"_ftn5\">[5]<\/a> Miller, J.-A. Coisas de fineza em psican\u00e1lise. <em>Perspectivas dos <\/em>Escritos<em> e <\/em>Outros escritos<em> de Lacan<\/em>: entre desejo e gozo. Rio de Janeiro: Zahar, 2011, p. 51.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref6\" name=\"_ftn6\">[6]<\/a> Miller, J.-A. Coisas de fineza em psican\u00e1lise, p. 50.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref7\" name=\"_ftn7\">[7]<\/a> Miller, J.-A. Coisas de fineza em psican\u00e1lise, p. 52.<\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Isabel do R\u00eago Barros Duarte Sa\u00ed das Jornadas do ano passado decidida a me oferecer para coordenar as pr\u00f3ximas e tive o prazer de ser muito bem recebida pelas diretoras da EBP-Rio, Maria In\u00eas Lamy, e do ICP-RJ, Marcia Zucchi. 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