{"id":57966,"date":"2024-10-04T16:10:06","date_gmt":"2024-10-04T19:10:06","guid":{"rendered":"https:\/\/jornadasebprioicprj.com.br\/2024\/?page_id=57966"},"modified":"2024-10-04T16:10:06","modified_gmt":"2024-10-04T19:10:06","slug":"quebradeira-historia-e-festa","status":"publish","type":"page","link":"https:\/\/jornadasebprioicprj.com.br\/2024\/quebradeira-historia-e-festa\/","title":{"rendered":"Quebradeira \u2013 Hist\u00f3ria e Festa"},"content":{"rendered":"<div class=\"wpb-content-wrapper\"><p>[vc_row][vc_column][vc_empty_space height=&#8221;80px&#8221;][\/vc_column][\/vc_row][vc_row][vc_column][vc_column_text css=&#8221;&#8221;]<\/p>\n<h6><em>Por Francisca Menta e Paloma Ametlla<\/em><\/h6>\n<p>A Comiss\u00e3o de Acolhimento e Festa<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\"><sup>[1]<\/sup><\/a>, junto com a Coordena\u00e7\u00e3o<a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\"><sup>[2]<\/sup><\/a> das XXXI Jornadas Cl\u00ednicas da EBP-Rio e do ICP-RJ intituladas A Palavra e a Pedra \u2013 Interpreta\u00e7\u00e3o em an\u00e1lise, estiveram presentes no Circuito Hist\u00f3rico de Heran\u00e7a Africana, realizado pelo Instituto Pretos Novos. O circuito prop\u00f5e um percurso pela regi\u00e3o conhecida como Pequena \u00c1frica que abrange uma parte da \u00e1rea central do Rio de Janeiro e da regi\u00e3o portu\u00e1ria, onde est\u00e1 cravada, em pedras e rochas, a dolorosa hist\u00f3ria de uma coloniza\u00e7\u00e3o que n\u00e3o ocorreu somente em nosso pa\u00eds, mas em muitos outros em que a escraviza\u00e7\u00e3o foi a forma sist\u00eamica de um processo de domina\u00e7\u00e3o e coloniza\u00e7\u00e3o de povos, n\u00e3o somente atrav\u00e9s da explora\u00e7\u00e3o da m\u00e3o de obra para a constru\u00e7\u00e3o do novo e sua adapta\u00e7\u00e3o, mas, sobretudo, atrav\u00e9s da cria\u00e7\u00e3o de uma rota de com\u00e9rcio para enriquecimento dos colonizadores.<\/p>\n<p>A Pequena \u00c1frica inclui a regi\u00e3o da Gamboa, onde ocorrer\u00e1 a festa de celebra\u00e7\u00e3o e encerramento das Jornadas deste ano. Retomar, aqui, o percurso da heran\u00e7a africana \u00e9 um resgate da hist\u00f3ria e da mem\u00f3ria material do Complexo do Valongo e dos locais onde se deu o processo sistematizado do tr\u00e1fico transatl\u00e2ntico, escraviza\u00e7\u00e3o e venda de pessoas de origem africana no Brasil col\u00f4nia.<\/p>\n<p>O Complexo do Valongo era composto pelo Cais do Valongo &#8211; local de chegada da popula\u00e7\u00e3o negra, o pelo Cemit\u00e9rio dos Pretos Novos, o Lazareto &#8211; local de inspe\u00e7\u00e3o sanit\u00e1ria e quarentena das pessoas que chegavam doentes dos navios, os Barrac\u00f5es &#8211; onde as pessoas sadias eram alimentadas e banhadas para serem comercializadas e o Mercado do Valongo &#8211; onde ficavam as lojas de vendas dessa popula\u00e7\u00e3o. A regi\u00e3o tamb\u00e9m foi marcada pelos processos de resist\u00eancia que se deram nas Casas de Zungu, com sambas e angus, no Quilombo da Pedra do Sal e sob outras formas cotidianas, com a constru\u00e7\u00e3o de brechas de sobreviv\u00eancia por parte da da popula\u00e7\u00e3o negra escravizada. O Complexo do Valongo foi um sistema de chegada e distribui\u00e7\u00e3o dessas pessoas para o restante do pa\u00eds, recebendo cerca de 1 milh\u00e3o de pessoas sequestradas de diferentes lugares do continente africano, entre 1774 e 1831, configurando um dos maiores locais de desembarque e venda de africanos escravizados no mundo.<\/p>\n<p>De l\u00e1 para c\u00e1, a regi\u00e3o sofreu uma s\u00e9rie de processos de apagamentos hist\u00f3ricos e patrimoniais. Destacamos, aqui, um elemento material que recolhemos em nossa visita\u00e7\u00e3o \u00e0 regi\u00e3o: a Pedra P\u00e9 de Moleque. At\u00e9 o ano de 2011, dessa pedra, cuja nomenclatura \u00e9 rodeada de contos, sem registros formais escritos sobre sua origem que remonta ao trabalho escravagista da \u00e9poca e dessa regi\u00e3o, restava apenas em um pequeno trecho, na lateral da Igreja Dr\u00ba de S\u00e3o Francisco da Prainha. Foi em meio \u00e0s obras de revitaliza\u00e7\u00e3o e implanta\u00e7\u00e3o do projeto \u201cPorto Maravilha\u201d para sediar as Olimp\u00edadas que, por acaso ou por ironia, precisando de um porto que estivesse belo e eficiente o bastante para receber os gigantescos navios de cruzeiros, surgiu aquilo que se desejava calar. Eis que, atrav\u00e9s de uma reconstru\u00e7\u00e3o da rede pluvial, foram encontrados artefatos arqueol\u00f3gicos que confirmaram a exist\u00eancia do Complexo do Valongo.\u00a0 Foi, ent\u00e3o, a partir das escava\u00e7\u00f5es da regi\u00e3o, at\u00e9 ent\u00e3o aterrada, que um peda\u00e7o de constru\u00e7\u00e3o feito de Pedra P\u00e9 de Moleque foi encontrado e\u00a0 se deu a ver, ali, o Cais do Valongo, que estava, ent\u00e3o, soterrado pela chamada Pra\u00e7a Jornal do Com\u00e9rcio. O S\u00edtio Arqueol\u00f3gico Cais do Valongo foi reconhecido como Patrim\u00f4nio Mundial pela Organiza\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas para Educa\u00e7\u00e3o, a Ci\u00eancia e a Cultura \u2013 UNESCO, em 9 de julho de 2017, por ser o \u00fanico vest\u00edgio material da chegada dos africanos escravizados na Am\u00e9rica.<\/p>\n<p>Para L\u00e9lia Gonz\u00e1lez, o caminho das pedras diante do enfrentamento ao racismo que marca e est\u00e1 nas bases origin\u00e1rias da nossa sociedade, \u00e9 a mem\u00f3ria. E, por mem\u00f3ria, entendemos, aqui, aquilo que n\u00e3o se sabe, mas se conhece, como esse \u201dlugar de inscri\u00e7\u00f5es que restituem uma hist\u00f3ria que n\u00e3o foi escrita, o lugar da emerg\u00eancia da verdade, dessa verdade que se estrutura como fic\u00e7\u00e3o\u201d<a href=\"#_ftn3\" name=\"_ftnref3\"><sup>[3]<\/sup><\/a>, tal qual a emerg\u00eancia da verdade ficcional da falsa democracia racial revelada pela quebradeira que desenterrou as Pedras P\u00e9 de Moleque. A autora diferencia a emerg\u00eancia da mem\u00f3ria do que seria a consci\u00eancia, esta segunda como sendo aquilo que se sabe, ou seja, o lugar da aliena\u00e7\u00e3o, do encobrimento e da subjuga\u00e7\u00e3o que serve a fins ideol\u00f3gicos. A consci\u00eancia, portanto, \u201cexclui o que a mem\u00f3ria inclui\u201d, atrav\u00e9s de uma domina\u00e7\u00e3o e imposi\u00e7\u00e3o do que ela considera como a verdade. L\u00e9lia afirma que a rela\u00e7\u00e3o entre a consci\u00eancia e a mem\u00f3ria \u00e9 uma dial\u00e9tica e diz:<\/p>\n<p>\u201cNo que se refere \u00e0 gente, \u00e0 crioulada, a gente saca que a consci\u00eancia faz tudo pra nossa hist\u00f3ria ser esquecida, tirada de cena. E apela pra tudo nesse sentido. S\u00f3 que isso t\u00e1 a\u00ed&#8230; E fala.\u201d<\/p>\n<p>A t\u00edtulo de curiosidade e para finalizar, aqui, o nosso circuito de pedras e palavras, informamos que em 1831, o Cais do Valongo foi desativado e que em 1843 ele passou pelo seu primeiro processo de apagamento hist\u00f3rico patrimonial, quando foi reformado para receber Teresa Cristina, a futura esposa de D. Pedro II, e rebatizado como Cais da Imperatriz, que, curiosamente, inspirou o nome da casa onde realizaremos a nossa festa de encerramento dessas Jornadas. O Cais da Imperatriz, o original, ao ser constru\u00eddo, deu in\u00edcio ao soterramento das Pedras P\u00e9 de Moleque do Cais do Valongo, que ficaram, ent\u00e3o, por mais de um s\u00e9culo escondidas. J\u00e1 a casa Cais da Imperatriz, essa possui outra hist\u00f3ria, embora carregue o mesmo nome, e se localiza no n\u00famero 145, da Rua Sacadura Cabral. Seu casar\u00e3o foi edificado em 1956 para servir de cocheira, onde se abrigavam os cavalos das carruagens dos comerciantes que se dirigiam aos trapiches da antiga Rua da Praia. De enorme valor hist\u00f3rico, passou por uma cuidadosa restaura\u00e7\u00e3o. Com mais de quinhentos metros quadrados e p\u00e9 direito de seis metros, este im\u00f3vel preserva, tanto interna quanto externamente, todas as caracter\u00edsticas arquitet\u00f4nicas do per\u00edodo, &#8220;fin du siecle\u201d.<\/p>\n<p>As casas de Zungu ou casas de angu, serviam de moradia, local para pr\u00e1ticas religiosas, festas, capoeira e como esconderijo de escravizados em fuga, onde se comia angus feito por quitandeiras da praia do Peixe como forma de acolher, cuidar dos escravizados e libertos do Rio no s\u00e9culo XIX. Formavam uma \u201ccomunidade invis\u00edvel\u201d de solidariedade, onde se criava cultura, religiosidade e ancestralidade. Nas casas de Zungu se celebrava a resist\u00eancia, a sobreviv\u00eancia com muita capoeira, tambores e samba, se festejava a vida. A festa \u00e9 um elemento fundamental para a resist\u00eancia e luta de um povo como forma de combater a opress\u00e3o.<\/p>\n<p>O Cais da Imperatriz, estabelecimento que receber\u00e1 a <strong>Quebradeira &#8211; a festa<\/strong> para celebrarmos o encerramento de nossas jornadas, fica a exatos 170 metros do Cais do Valongo. Aquelas paredes de pedras s\u00e3o hist\u00f3ria pura! Com suas marcas de dor e tamb\u00e9m de festa. Sim, festa! A festa pode ser subversiva e atrav\u00e9s dela se suporta o incalcul\u00e1vel, se solidariza com o outro, se acolhe, se coletiviza. Escavar as pedras, deix\u00e1-las falar, num trabalho de arqueologia, interroga\u00e7\u00e3o e interpreta\u00e7\u00e3o de nossa hist\u00f3ria. Quebrar as pedras, encontrar rachaduras e re-existir nisso que insiste em aparecer, usar das palavras, extrair as pedras do caminho e encontrar a pedra fundamental do desejo. Eis a Psican\u00e1lise na cidade. E vamos \u00e0 Quebradeira!<\/p>\n<hr \/>\n<h6><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\"><sup>[1]<\/sup><\/a> Comiss\u00e3o de Acolhimento e Festa composta por Daniele Menezes (Coordena\u00e7\u00e3o), Francisca Menta (Coordena\u00e7\u00e3o), Camila Ventura, Marina Gomorra, Mariana Pucci e Paloma Ametlla.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\"><sup>[2]<\/sup><\/a> Coordena\u00e7\u00e3o Geral das <em>XXXI Jornadas Cl\u00ednicas da EBP-Rio e do ICP-RJ intitulada A Palavra e a Pedra \u2013 Interpreta\u00e7\u00e3o em an\u00e1lise <\/em>composta por Ana Beatriz Zimmermann e Isabel do Rego Barros Duarte.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref3\" name=\"_ftn3\"><sup>[3]<\/sup><\/a> GONZALEZ, L\u00e9lia. Por um Feminismo Afro-Americano. Rio de Janeiro: Zahar, 2020.<\/h6>\n<p>[\/vc_column_text][\/vc_column][\/vc_row]<\/p>\n<\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>[vc_row][vc_column][vc_empty_space height=&#8221;80px&#8221;][\/vc_column][\/vc_row][vc_row][vc_column][vc_column_text css=&#8221;&#8221;] Por Francisca Menta e Paloma Ametlla A Comiss\u00e3o de Acolhimento e Festa[1], junto com a Coordena\u00e7\u00e3o[2] das XXXI Jornadas Cl\u00ednicas da EBP-Rio e do ICP-RJ intituladas A Palavra e a Pedra \u2013 Interpreta\u00e7\u00e3o em an\u00e1lise, estiveram presentes no Circuito Hist\u00f3rico de Heran\u00e7a Africana, realizado pelo Instituto Pretos Novos. 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