{"id":57460,"date":"2024-05-20T16:19:16","date_gmt":"2024-05-20T19:19:16","guid":{"rendered":"https:\/\/jornadasebprioicprj.com.br\/2024\/?page_id=57460"},"modified":"2024-05-27T05:13:51","modified_gmt":"2024-05-27T08:13:51","slug":"argumento","status":"publish","type":"page","link":"https:\/\/jornadasebprioicprj.com.br\/2024\/argumento\/","title":{"rendered":"Argumento"},"content":{"rendered":"<div class=\"wpb-content-wrapper\"><p>[vc_row][vc_column][vc_empty_space height=&#8221;50px&#8221;][vc_column_text css=&#8221;&#8221;]<\/p>\n<h6><em>Ang\u00e9lica Bastos<br \/>\n<\/em><em>Paula Legey<br \/>\n<\/em>(Coordenadoras da Comiss\u00e3o Cient\u00edfica)<\/h6>\n<p>No \u00faltimo cap\u00edtulo do semin\u00e1rio <em>&#8230;ou pior<\/em>, Lacan localiza um intervalo entre corpos e discursos. Ele nos convoca, enquanto analistas, a nos exercitarmos em distinguir aquilo que obtura o intervalo. No discurso do mestre, apontado por Lacan como sendo aquele do qual somos mais fundamentalmente dependentes, a hi\u00e2ncia entre corpos e discursos \u00e9 preenchida por afetos, mais precisamente, ele diz, por \u201cbons sentimentos\u201d. \u201cNo discurso do mestre\/senhor, voc\u00eas, como corpos, est\u00e3o petrificados\u201d.<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">[1]<\/a> No lugar disso que petrifica, do que se apresenta como tamponamento da hi\u00e2ncia que existe entre o n\u00edvel do corpo, do gozo e do semblante e o discurso,<a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\">[2]<\/a> Lacan indica o que deve ser introduzido pelo analista: a interpreta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Convidamos nossa comunidade a submeter a interpreta\u00e7\u00e3o \u00e0 an\u00e1lise, discutindo seu lugar diante dos discursos dominantes no la\u00e7o social.<\/p>\n<p>Em uma primeira aproxima\u00e7\u00e3o, os significantes que d\u00e3o nome \u00e0s pr\u00f3ximas Jornadas Cl\u00ednicas da EBP-Rio e do ICP-RJ est\u00e3o em oposi\u00e7\u00e3o. De um lado, a palavra, de outro, a pedra. A palavra como aquilo que se usa no intuito de capturar o real, a pedra como o obst\u00e1culo n\u00e3o simboliz\u00e1vel. \u201cLutar com as palavras \u00e9 a luta mais v\u00e3. Entanto lutamos mal rompe a manh\u00e3\u201d.<a href=\"#_ftn3\" name=\"_ftnref3\">[3]<\/a> Assim escreveu Carlos Drummond de Andrade no poema &#8220;O lutador<em>&#8221; <\/em>(1983). A luta com as palavras de que fala o poeta, podemos entend\u00ea-la como sua vers\u00e3o para a impossibilidade de tudo dizer, para um limite na pr\u00f3pria estrutura da linguagem. Na \u00e1lgebra lacaniana, isso ganhou o nome de objeto <em>a<\/em>, resto imposs\u00edvel de simbolizar, figura do irrepresent\u00e1vel que persiste como presen\u00e7a que perturba. \u00c9 a pedra no caminho de que falou Drummond em outro poema \u2013 \u201cNo meio do caminho\u201d \u2013, longamente comentado por Jacques-Alain Miller<a href=\"#_ftn4\" name=\"_ftnref4\">[4]<\/a>, como um modo de apresenta\u00e7\u00e3o do real.<\/p>\n<p>Indo um pouco al\u00e9m dessa primeira perspectiva, desfaz-se a oposi\u00e7\u00e3o. A pedra de que se trata \u00e9 tamb\u00e9m a pedra da fala e a palavra n\u00e3o apenas \u00e9 o modo de acesso ao gozo, mas causa de gozo. Aqui o poema de Olga Savary \u201cEntre er\u00f3tica e m\u00edstica\u201d pode nos oferecer uma vers\u00e3o diferente da de Drummond:<\/p>\n<p style=\"padding-left: 160px;\">Antes que me esque\u00e7a,<\/p>\n<p style=\"padding-left: 160px;\">Poesia, as palavras n\u00e3o s\u00f3 combato:<\/p>\n<p style=\"padding-left: 160px;\">durmo com elas.<a href=\"#_ftn5\" name=\"_ftnref5\">[5]<\/a><\/p>\n<p>Palavra e pedra se conjugam na interpreta\u00e7\u00e3o. Miller afirma que o segredo da interpreta\u00e7\u00e3o \u00e9 preservar o lugar do sil\u00eancio, do que n\u00e3o se pode dizer.<a href=\"#_ftn6\" name=\"_ftnref6\">[6]<\/a> Para qualificar o obst\u00e1culo \u00faltimo do tratamento anal\u00edtico, Freud situa no fim do caminho um rochedo, uma pedra. Para ele, essa pedra remete ao sexual. Lacan acrescenta que a pedra pode ser uma pedra preciosa, diamante, como o \u00e1galma.<a href=\"#_ftn7\" name=\"_ftnref7\">[7]<\/a> Em uma an\u00e1lise, trata-se de transformar o obst\u00e1culo em passagem, fazer algo com o imposs\u00edvel. Uma psican\u00e1lise pressup\u00f5e que a fala seja uma leitura, ou seja, que o inconsciente se l\u00ea e que o analisante aprende a se ler. \u00c0 leitura efetuada pelo inconsciente se acrescenta a do analista, quando ele faz ouvir nos ditos do analisante o que os ultrapassa.<\/p>\n<p>O termo interpreta\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 un\u00edvoco: a interpreta\u00e7\u00e3o traduz, pontua, equivoca, corta. A lista seria longa, pois ela tamb\u00e9m faz enigma, cita, faz ressoar. Para que haja interpreta\u00e7\u00e3o n\u00e3o basta perguntar: <em>o que isso quer dizer?<\/em> A exemplo do que formula Lacan<a href=\"#_ftn8\" name=\"_ftnref8\">[8]<\/a> para a interpreta\u00e7\u00e3o dos sonhos, tampouco \u00e9 suficiente desdobrar a pergunta: <em>o que ele quer, para dizer isso?<\/em> \u2013 interroga\u00e7\u00e3o que remete ao sujeito da enuncia\u00e7\u00e3o e ao desejo. A satisfa\u00e7\u00e3o que se encontra no sintoma articulado na fala requer a pergunta: <em>o que, ao dizer, isso quer?<\/em> A opera\u00e7\u00e3o anal\u00edtica responde ao querer dizer e ao querer gozar.<\/p>\n<p>Em uma psican\u00e1lise, a interpreta\u00e7\u00e3o n\u00e3o corresponde \u00e0 interven\u00e7\u00e3o unilateral do psicanalista, pois o pr\u00f3prio inconsciente interpreta. Se a interpreta\u00e7\u00e3o anal\u00edtica duplicasse aquela do inconsciente, a an\u00e1lise \u2013 e mesmo a sess\u00e3o \u2013 se tornaria intermin\u00e1vel, relan\u00e7ando cada palavra na busca de outra que induzisse sentido. Antes de desvelar um sentido \u00faltimo, ela abre o sentido para o n\u00e3o senso que o habita.<\/p>\n<p>Em sua especificidade, a interpreta\u00e7\u00e3o lacaniana vai al\u00e9m do sentido sexual, apontando para a n\u00e3o rela\u00e7\u00e3o. Da\u00ed a import\u00e2ncia de cernir n\u00e3o s\u00f3 o sentido sexual, mas a satisfa\u00e7\u00e3o que se extrai da fantasia e o gozo opaco que a excede. Nas pr\u00f3ximas Jornadas buscaremos circunscrever os impasses e os efeitos de interpreta\u00e7\u00e3o em nossa pr\u00e1tica psicanal\u00edtica, seja nos consult\u00f3rios, seja nas institui\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>O que a passagem pelo discurso do analista promove em rela\u00e7\u00e3o aos corpos petrificados pelo discurso do mestre? Se a psican\u00e1lise \u00e9 o avesso deste discurso, ela n\u00e3o o \u00e9 por se apresentar como solu\u00e7\u00e3o, mas como conting\u00eancia que se apresenta na cl\u00ednica. Gostar\u00edamos, nessas Jornadas, de fazer uma tentativa de verific\u00e1-lo.<\/p>\n<hr \/>\n<h6><\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> Lacan, J. (1971-1972). <em>O semin\u00e1rio, livro 19<\/em>: &#8230;ou pior. Rio de Janeiro: Zahar, 2012, p. 220.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">[2]<\/a> Lacan, J. (1971-1972). <em>O semin\u00e1rio, livro 19<\/em>: &#8230;ou pior, p. 223.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref3\" name=\"_ftn3\">[3]<\/a> Drummond de Andrade, C. <em>Antologia po\u00e9tica<\/em>. Rio de Janeiro: Jos\u00e9 Ol\u00edmpio, 1983, p. 172.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref4\" name=\"_ftn4\">[4]<\/a> Miller, J.-A. <em>O osso de uma an\u00e1lise<\/em>: o inconsciente e o corpo falante. Rio de Janeiro: Zahar, 2015, p. 10.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref5\" name=\"_ftn5\">[5]<\/a> Savary, O. <em>Repert\u00f3rio selvagem<\/em>: obra reunida: 12 livros de poesia, 1947-1998. Rio de Janeiro: Universidade de Mogi das Cruzes, 1998, p. 215.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref6\" name=\"_ftn6\">[6]<\/a> Miller, J.-A. <em>Silet<\/em>: os paradoxos da puls\u00e3o de Freud a Lacan. Rio de Janeiro: Zahar, 2005, p. 11.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref7\" name=\"_ftn7\">[7]<\/a> Miller, J.-A. <em>O osso de uma an\u00e1lise<\/em>, p. 28.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref8\" name=\"_ftn8\">[8]<\/a> Lacan, J. (1968-1969). <em>De um Outro ao outro<\/em>. Rio de Janeiro: Zahar, 2008, p. 194.<\/h6>\n<p>[\/vc_column_text][\/vc_column][\/vc_row]<\/p>\n<\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>[vc_row][vc_column][vc_empty_space height=&#8221;50px&#8221;][vc_column_text css=&#8221;&#8221;] Ang\u00e9lica Bastos Paula Legey (Coordenadoras da Comiss\u00e3o Cient\u00edfica) No \u00faltimo cap\u00edtulo do semin\u00e1rio &#8230;ou pior, Lacan localiza um intervalo entre corpos e discursos. Ele nos convoca, enquanto analistas, a nos exercitarmos em distinguir aquilo que obtura o intervalo. 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