{"id":57779,"date":"2023-10-18T06:13:52","date_gmt":"2023-10-18T09:13:52","guid":{"rendered":"https:\/\/jornadasebprioicprj.com.br\/2023\/?p=57779"},"modified":"2023-10-18T06:13:52","modified_gmt":"2023-10-18T09:13:52","slug":"notas-sobre-a-desilusao-do-futuro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/jornadasebprioicprj.com.br\/2023\/notas-sobre-a-desilusao-do-futuro\/","title":{"rendered":"Notas sobre \u201cA desilus\u00e3o do futuro\u201d"},"content":{"rendered":"<h5>Por Renata Martinez<\/h5>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">Que \u00e9 a vida? Um frenesi.<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">Que \u00e9 a vida? Uma ilus\u00e3o,<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">uma sombra, uma fic\u00e7\u00e3o,<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">e o maior bem pouco \u00e9;<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">pois que a vida sonho \u00e9,<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">e os sonhos, sonhos s\u00e3o.<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\"><sup>[1]<\/sup><\/a><\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Com essas palavras da pe\u00e7a \u201cA vida \u00e9 sonho\u201d de Calder\u00f3n de la Barca, o colega da EBP Bahia, Marcelo Veras, nos convidou a seguir uma surpreendente amarra\u00e7\u00e3o entre seu livro rec\u00e9m lan\u00e7ado, \u201cA morte de si\u201d, e o tema das 30as Jornadas Cl\u00ednicas da EBP Rio e do ICP RJ, \u201cIlus\u00e3o\u201d. Nessa 1\u00aa Preparat\u00f3ria rumo ao evento, ocorrida no dia 25 de setembro, Marcelo nos colocou a trabalho a partir do que nomeou como \u201cA desilus\u00e3o do futuro\u201d, trazendo importantes reflex\u00f5es e cr\u00f4nicas curiosas envolvendo de Caetano Veloso a Stephen Jay Gold, passando pela poesia de Drummond.<\/p>\n<p>O ponto comum das diversas hist\u00f3rias narradas pode ser localizado no homem como um ser de linguagem e gozo que possui a delirante capacidade de conjugar verbos no futuro. Antecipar o futuro, profetiz\u00e1-lo com palavras confere a toda dimens\u00e3o de temporalidade uma tonalidade delirante, al\u00e9m de capturar o sujeito e seu corpo como alvos desse fen\u00f4meno \u00edmpar. Assim, a trama linguageira que nos antecede vivifica nossa exist\u00eancia a partir do cruzamento entre o \u201cazar\u201d e o \u201cestava escrito\u201d.\u00a0 A psican\u00e1lise entra nesse jogo como uma ferramenta capaz de subverter esse n\u00f3, \u201ctransformar perdas em pedras\u201d<a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\"><sup>[2]<\/sup><\/a>, o que faz com que ningu\u00e9m chegue ao fim de an\u00e1lise sem perceber que seu pr\u00f3prio romance familiar n\u00e3o passou de uma ilus\u00e3o.<\/p>\n<p>O entrela\u00e7amento do tema de nossas Jornadas com seu livro aparece quando Marcelo nos fala da hip\u00f3tese ali contida de que todo suicida possui sua carta e, com ela, um destinat\u00e1rio. O suicida tamb\u00e9m conjuga o verbo no futuro e produz a vertigem de continuar existindo. Tanto a vida quanto a morte s\u00e3o a jun\u00e7\u00e3o do acaso e do que j\u00e1 est\u00e1 de algum modo ali presente, uma esp\u00e9cie de emaranhado de conting\u00eancias que tem correla\u00e7\u00e3o com o modo como o real interv\u00eam no que \u201cestava escrito\u201d.<\/p>\n<p>Segundo o autor, a desilus\u00e3o do futuro representar\u00e1, justamente, o momento da queda, quando algo da cobertura ao real se rompe, nos levando a descobrir como nos arranjar com isso. \u201cA morte de si\u201d pode ser pensada como uma tentativa de dar conta desses momentos cruciais da vida onde o sujeito precisa lidar com os trope\u00e7os do real.<\/p>\n<p>Como um alerta, Marcelo nos traz a pot\u00eancia do trabalho de escuta do grupo PsiU<a href=\"#_ftn3\" name=\"_ftnref3\"><sup>[3]<\/sup><\/a> com os estudantes da UFBA iniciado a partir da inquietante eleva\u00e7\u00e3o da taxa de suic\u00eddio entre jovens universit\u00e1rios no mundo. A interroga\u00e7\u00e3o inicial de sua pesquisa surge de um paradoxo: \u201cningu\u00e9m entra para a universidade sem uma aposta no futuro, ent\u00e3o, por que os jovens est\u00e3o se matando tanto?\u201d A realidade brasileira nos p\u00f5e diante de uma dura situa\u00e7\u00e3o: a mudan\u00e7a gigantesca no tecido social que comp\u00f5e a universidade a partir do sistema de cotas \u2013 quando negros, ind\u00edgenas, quilombolas pluralizam o ambiente \u2013 tamb\u00e9m faz aparecer dentro da universidade um problema com o qual ela n\u00e3o est\u00e1 preparada para lidar, a precariedade imposta \u00e0 vida dessas pessoas.<\/p>\n<p>O que analistas podem fazer nessas situa\u00e7\u00f5es de mis\u00e9ria? Os atendimentos realizados no ambiente da UFBA explicitam a no\u00e7\u00e3o de \u201cutilidade social da escuta\u201d<a href=\"#_ftn4\" name=\"_ftnref4\"><sup>[4]<\/sup><\/a>, atestam que ter algu\u00e9m que escuta do outro lado da linha faz com que aquelas pessoas deixem de ser invis\u00edveis. Em muitos casos, s\u00e3o jovens que se separaram de suas realidades, deixaram suas fam\u00edlias e, uma vez no novo cen\u00e1rio, tiveram uma fragmenta\u00e7\u00e3o aguda e dura da ilus\u00e3o de um Outro muito investido \u2013 a universidade passa a ser o Outro da demanda e n\u00e3o mais o lugar sonhado de acolhimento e saciedade. As marcas do racismo e da invisibilidade fazem com que seja imposs\u00edvel que a dimens\u00e3o do futuro com suas ilus\u00f5es e desilus\u00f5es seja pensada sem uma profunda reflex\u00e3o sobre o Outro social e suas consequ\u00eancias concretas.<\/p>\n<p>Nosso convidado termina sua apresenta\u00e7\u00e3o desejante que a psican\u00e1lise possa estar cada vez mais presente na cidade e se fa\u00e7a encontrar nos caminhos desses jovens, pelos becos e vielas das quebradas alargando seus sonhos de cent\u00edmetros<a href=\"#_ftn5\" name=\"_ftnref5\"><sup>[5]<\/sup><\/a>.<\/p>\n<hr \/>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> Calderon de la Barca, <em>A vida \u00e9 sonho. <\/em>Editorial Estampa: Lisboa, Portugal, pg. 131.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">[2]<\/a> Refer\u00eancia ao poema \u201cNo meio do caminho\u201d de Carlos Drummond de Andrade, citado por Marcelo Veras durante sua fala.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref3\" name=\"_ftn3\">[3]<\/a> PsiU \u2013 grupo de 32 volunt\u00e1rios, todos analisantes que, a partir de um grupo de whats app, recebem e dividem as demandas de escuta da comunidade acad\u00eamica. Para saber mais sobre o projeto, acesso pelo link: <a href=\"https:\/\/cartadeservicos.ufba.br\/psiu-plantao-de-acolhimento-da-ufba\">https:\/\/cartadeservicos.ufba.br\/psiu-plantao-de-acolhimento-da-ufba<\/a><\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref4\" name=\"_ftn4\">[4]<\/a> MILLER, J-A. Da utilidade social da escuta. In: <em>Op\u00e7\u00e3o Lacaniana<\/em>: Revista Brasileira Internacional de Psican\u00e1lise, S\u00e3o Paulo, n.38, p.19-22, dezembro 2003.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref5\" name=\"_ftn5\">[5]<\/a> Refer\u00eancia \u00e0 poesia da slammer Luz Ribeiro que Marcelo Veras apresenta ao final de sua fala.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Renata Martinez &nbsp; \u00a0 Que \u00e9 a vida? Um frenesi. Que \u00e9 a vida? Uma ilus\u00e3o, uma sombra, uma fic\u00e7\u00e3o, e o maior bem pouco \u00e9; pois que a vida sonho \u00e9, e os sonhos, sonhos s\u00e3o.[1] \u00a0 &nbsp; &nbsp; Com essas palavras da pe\u00e7a \u201cA vida \u00e9 sonho\u201d de Calder\u00f3n de la Barca,&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[521],"tags":[],"class_list":["post-57779","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-boletim-moinhos","category-521","description-off"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/jornadasebprioicprj.com.br\/2023\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/57779","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/jornadasebprioicprj.com.br\/2023\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/jornadasebprioicprj.com.br\/2023\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/jornadasebprioicprj.com.br\/2023\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/jornadasebprioicprj.com.br\/2023\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=57779"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/jornadasebprioicprj.com.br\/2023\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/57779\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":57780,"href":"https:\/\/jornadasebprioicprj.com.br\/2023\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/57779\/revisions\/57780"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/jornadasebprioicprj.com.br\/2023\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=57779"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/jornadasebprioicprj.com.br\/2023\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=57779"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/jornadasebprioicprj.com.br\/2023\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=57779"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}