{"id":57761,"date":"2023-10-10T11:15:30","date_gmt":"2023-10-10T14:15:30","guid":{"rendered":"https:\/\/jornadasebprioicprj.com.br\/2023\/?p=57761"},"modified":"2023-10-10T11:15:30","modified_gmt":"2023-10-10T14:15:30","slug":"cinema-comentado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/jornadasebprioicprj.com.br\/2023\/cinema-comentado\/","title":{"rendered":"Cinema comentado"},"content":{"rendered":"<h3><span style=\"color: #ff0000;\"><strong>Ilus\u00e3o e real no cinema &#8211; <\/strong><em>Sobre o filme \u201cRetratos Fantasmas\u201d de Kleber Mendon\u00e7a Filho<\/em><\/span><\/h3>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">Maria In\u00eas Lamy<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>\u201cOs filmes de fic\u00e7\u00e3o s\u00e3o os melhores document\u00e1rios.&#8221;<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\"><sup>[1]<\/sup><\/a> Esta frase, que um personagem sussurra para outro como um segredo, serve de guia para &#8220;Retratos fantasmas&#8221;. Parecendo inspirado em Lacan, para quem a verdade tem estrutura de fic\u00e7\u00e3o, o cineasta relaciona seus filmes a epis\u00f3dios de sua vida. O limite entre fic\u00e7\u00e3o e realidade se emba\u00e7a, sob a \u00e9gide da verdade mentirosa. A casa da inf\u00e2ncia \u00e9 registrada em fotos e v\u00eddeos e o diretor chega a encenar, com a fam\u00edlia e amigos, a tentativa de assalto que havia acabado de ocorrer na vizinhan\u00e7a. Sua m\u00e3e j\u00e1 falecida, presen\u00e7a marcante que parece ter transmitido o amor \u00e0 Hist\u00f3ria e \u00e0s hist\u00f3rias, assume um novo lugar quando \u00e9 vista na tela da televis\u00e3o. O cinema \u00e9 apresentado como uma ilus\u00e3o que tem fun\u00e7\u00e3o de anteparo, tela diante do real. Cada <em>take<\/em> escolhido denota o ponto de vista do diretor, sua maneira singular de contar a hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>Ao longo das filmagens de Kleber Mendon\u00e7a Filho, vemos que as surpresas s\u00e3o bem-vindas, como a participa\u00e7\u00e3o especial do cachorro vizinho, que irrompe na cena com seus pulos e latido. Por outro lado, algo da ordem do <em>Unheimlich<\/em> emerge no in\u00edcio do filme: um fantasma que se imiscui em uma das fotos, mancha que invade seu campo de vis\u00e3o. Os fot\u00f3grafos e cineastas geralmente buscam enquadrar o ins\u00f3lito, abrem-se \u00e0s conting\u00eancias, mas \u00e0s vezes esbarram em algo al\u00e9m. \u2018Retratos fantasmas\u2019 \u2013 \u00e9 bem disso que se trata. Tentativa de capturar imagens, dando-se conta de que algo escapa e que o real pode emergir, assombrando.<\/p>\n<p>Kleber Mendon\u00e7a, quando registra pessoas saindo do cinema, indica que elas estariam deixando o mundo de ilus\u00e3o dos filmes e voltando \u00e0 realidade. Ser\u00e1? Segundo Lacan, o despertar salva da ang\u00fastia, ou seja, acordamos para continuar a sonhar. Os bons filmes, assim como os sonhos, tocam o real. A cena fantasm\u00e1tica funciona como ilus\u00e3o que circunscreve o ponto de horror.<\/p>\n<p>O clima m\u00e1gico, quase assombrado, que ronda o filme, evidencia-se no fim quando o motorista do <em>uber<\/em> some do olhar de Kleber Mendon\u00e7a, tornando-se invis\u00edvel. Vendo-se guiado por ningu\u00e9m, a ang\u00fastia emerge e o diretor afivela o cinto de seguran\u00e7a. O cineasta transforma-se em ator mesclando document\u00e1rio e fic\u00e7\u00e3o. Mas o absurdo mostra sua face de humor, trazendo al\u00edvio \u00e0 atmosfera nost\u00e1lgica do filme e talvez sobretudo tentando encobrir o cerne da atividade cinematogr\u00e1fica que a\u00ed se revela: o objeto olhar. No final o carro sem condutor percorre as ruas do Recife. O olhar passeia pela cidade.<\/p>\n<p>O cineasta alem\u00e3o Wim Wenders, no filme \u201cJanela da alma\u201d<a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\"><sup>[2]<\/sup><\/a>, confessa que jamais abriria m\u00e3o dos \u00f3culos, uma vez que eles enquadram seu olhar. Tentou usar lentes de contato mas, sem a arma\u00e7\u00e3o dos \u00f3culos, diz ele que v\u00ea demais. O enquadre e o que escapa ao enquadre \u2013 parece ser esse o of\u00edcio dos artistas que tentam colocar na tela o que captam com as c\u00e2meras. O belo \u201cRetratos Fantasmas\u201d nos ensina que o cinema \u00e9 isso: ilus\u00e3o que tenta dar um contorno de fic\u00e7\u00e3o ao real do olhar.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h5><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a>\u00a0 Kleber Mendon\u00e7a Filho revelou que esta frase, dita por ele como narrador, foi uma inven\u00e7\u00e3o sua, a partir de uma cena do filme \u201cEisenstein\u201d, de Naum Klejman, Marianna Kirejewa e Alexander Askin, Alemanha\/ R\u00fassia, 1997.<\/h5>\n<h5>[2] \u201cJanela da alma\u201d, filme de Jo\u00e3o Jardim e Walter Carvalho, Brasil, 2001.<\/h5>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ilus\u00e3o e real no cinema &#8211; Sobre o filme \u201cRetratos Fantasmas\u201d de Kleber Mendon\u00e7a Filho &nbsp; &nbsp; Maria In\u00eas Lamy &nbsp; &nbsp; \u201cOs filmes de fic\u00e7\u00e3o s\u00e3o os melhores document\u00e1rios.&#8221;[1] Esta frase, que um personagem sussurra para outro como um segredo, serve de guia para &#8220;Retratos fantasmas&#8221;. 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