{"id":57722,"date":"2023-09-26T05:07:34","date_gmt":"2023-09-26T08:07:34","guid":{"rendered":"https:\/\/jornadasebprioicprj.com.br\/2023\/?p=57722"},"modified":"2023-09-26T08:45:17","modified_gmt":"2023-09-26T11:45:17","slug":"sobre-as-ilusoes-na-clinica-psicanalitica-que-se-diz-que-se-ouve-que-se-interpreta","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/jornadasebprioicprj.com.br\/2023\/sobre-as-ilusoes-na-clinica-psicanalitica-que-se-diz-que-se-ouve-que-se-interpreta\/","title":{"rendered":"Sobre as ilus\u00f5es na cl\u00ednica psicanal\u00edtica: que se diz, que se ouve, que se interpreta?"},"content":{"rendered":"<h6 style=\"text-align: right;\">Mirta Zbrun<\/h6>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"padding-left: 160px; text-align: right;\"><em>\u201cO que permanece caracter\u00edstico da ilus\u00e3o \u00e9 a deriva\u00e7\u00e3o de desejos humanos, e nesse aspecto ela se aproxima da ideia delirante na Psiquiatria<strong>, <\/strong>mas tamb\u00e9m se aparta dela, sem considerar a constru\u00e7\u00e3o mais complicada da ideia delirante. Na ideia delirante destacamos como fundamental a contradi\u00e7\u00e3o com a realidade; a ilus\u00e3o n\u00e3o precisa necessariamente ser falsa, isto \u00e9, ser irrealiz\u00e1vel, ou estar em contradi\u00e7\u00e3o com a realidade.\u201d, <\/em>escreve Feud.<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\"><sup>[1]<\/sup><\/a><\/p>\n<p>Quando se fala de ilus\u00f5es tamb\u00e9m se vive! Confirma-se que elas n\u00e3o precisam ser falsas, irrealiz\u00e1veis ou em contradi\u00e7\u00e3o com a realidade, como escreve Freud no par\u00e1grafo citado acima, pois o que permanece caracter\u00edstico da ilus\u00e3o \u00e9 a deriva\u00e7\u00e3o de desejos humanos.\u00a0 Desse modo, ela se aproxima da ideia delirante considerada pela psiquiatria<strong>, <\/strong>por\u00e9m, \u00e9 interessante observar como que, para Freud, ela se afasta da psiquiatria por considerar a constru\u00e7\u00e3o mais complicada que a ideia delirante. E ele ainda assinala que na ideia delirante destacamos como fundamental a contradi\u00e7\u00e3o com a realidade. E para notar uma ideia sobre o tema da ilus\u00e3o, Freud observa que a ilus\u00e3o n\u00e3o precisa necessariamente ser falsa, isto \u00e9, ser irrealiz\u00e1vel ou em contradi\u00e7\u00e3o com a realidade.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, para que servem as ilus\u00f5es pois n\u00e3o se vive sem elas? Qual sua utilidade, seu uso, ou sua efic\u00e1cia na an\u00e1lise? O que se pode ouvir nas alucina\u00e7\u00f5es deveria ser considerado elemento de interesse no tratamento psicanal\u00edtico?<\/p>\n<p>As alucina\u00e7\u00f5es ps\u00edquicas, ou tamb\u00e9m chamadas de fen\u00f4menos alucinat\u00f3rios, est\u00e3o desprovidas de sensibilidade e \u201cparecem relacionar-se quase exclusivamente com a audi\u00e7\u00e3o\u201d.<a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\"><strong><sup>[2]<\/sup><\/strong><\/a> Nos casos de loucura, nos quais seria poss\u00edvel diferenciar as ilus\u00f5es dos del\u00edrios que comp\u00f5em a estrutura de uma met\u00e1fora delirante, elas se apresentam em geral como auditivas. J\u00e1 os del\u00edrios, s\u00e3o cren\u00e7as exageradas, irrefut\u00e1veis, porque se tem certeza de algo, mesmo sem nenhuma evid\u00eancia real disso. Sem embargo, nas alucina\u00e7\u00f5es h\u00e1 uma percep\u00e7\u00e3o de coisas que n\u00e3o est\u00e3o l\u00e1, sejam elas imagens ou sons, e se acredita que s\u00e3o reais. Na cl\u00ednica se observa que o del\u00edrio e as alucina\u00e7\u00f5es podem ocorrer juntos e por vezes relacionados, e os sintomas de ambos os fen\u00f4menos trazerem em geral sofrimento e ang\u00fastia.<\/p>\n<p>Na tentativa de avan\u00e7ar na compreens\u00e3o das <em>ilus\u00f5es<\/em> na cl\u00ednica psicanal\u00edtica, recorremos ao enunciado lacaniano \u201cque se diga fica esquecido por tr\u00e1s do que se diz em o que se ouve em seu escrito\u201d que encontramos no escrito do Lacan <em>O aturdito<\/em> <a href=\"#_ftn3\" name=\"_ftnref3\"><sup>[3]<\/sup><\/a>. Podemos pensar que algo se diz, se disse, se ouve, se interpreta das ilus\u00f5es na cl\u00ednica psicanal\u00edtica?<\/p>\n<p>Para responder as quest\u00f5es at\u00e9 aqui levantadas apresentamos as seguintes considera\u00e7\u00f5es:<\/p>\n<p><strong><em>Que se diz nas alucina\u00e7\u00f5es<\/em><\/strong>? Se consideramos que h\u00e1 um dito em todo dizer, e que alucinar quer dizer algo, podemos pensar que o <em>falasser<\/em> recorre \u00e0s alucina\u00e7\u00f5es para n\u00e3o ver o que deseja, para driblar o al\u00e9m do envolt\u00f3rio formal do sintoma e acreditar realizar a fantasia em seu la\u00e7o libidinal com o objeto como se observa no amor. A essa utilidade podemos acrescentar o fator quantitativo do princ\u00edpio do prazer realizado na ilus\u00e3o do sujeito de enganar-se e tender a ser uma armadilha diante do desejo do Outro, fazer acreditar a seu parceiro imagin\u00e1rio a efic\u00e1cia da sua ilus\u00e3o<\/p>\n<p><strong><em>O que se ouve nas alucina\u00e7\u00f5es<\/em><\/strong>? As alucina\u00e7\u00f5es sejam elas do amor, das loucuras de cada um, ou nos discursos, elas s\u00e3o narradas na an\u00e1lise? Se consideramos que formam parte das narrativas do sujeito na sess\u00e3o anal\u00edtica, podemos propor que na cl\u00ednica psicanal\u00edtica trata-se de ouvir o que se diz atr\u00e1s do que ouve nas alucina\u00e7\u00f5es do sujeito. Partamos do princ\u00edpio de que as alucina\u00e7\u00f5es entram a formar parte da cl\u00ednica psicanal\u00edtica, presentes no relato dos sonhos no que ele tem de mais alucinat\u00f3rio, nas associa\u00e7\u00f5es livres decorrentes das lembran\u00e7as, em especial, das chamadas lembran\u00e7as encobridoras. Tais enunciados trazem na sua enuncia\u00e7\u00e3o um dito, a saber o que se escuta no que se ouve no <em>parl\u00eatre. <\/em>A\u00ed encontramos o <em>l`Etourdit<\/em> lacaniano que parte da dist\u00e2ncia que h\u00e1 entre o dizer e o dito mencionado no Semin\u00e1rio livro 20, <em>mais ainda<\/em>.<a href=\"#_ftn4\" name=\"_ftnref4\"><sup>[4]<\/sup><\/a> Na cl\u00ednica psicanal\u00edtica tratamos do inconsciente pelos ditos do paciente que o seu dizer traz, segundo a f\u00f3rmula lacaniana, \u201cque se diga fica esquecido por tr\u00e1s do que se diz em o que se ouve\u201d que encontramos no escrito O aturdito <a href=\"#_ftn5\" name=\"_ftnref5\"><sup>[5]<\/sup><\/a>.<\/p>\n<p><strong><em>O Inconsciente int\u00e9rprete nas alucina\u00e7\u00f5es.<\/em><\/strong> Defrontar-se na pr\u00e1tica cl\u00ednica com o Inconsciente e o corpo falante \u00e9 tamb\u00e9m encontrar-se com as ilus\u00f5es dos sujeitos em an\u00e1lise, algumas delas sempre perdidas, como disse Balzac: <em>A avareza, como o amor, tem o dom da vista dupla sobre futuros contingentes: fareja-os, exprime<\/em>.\u00a0 Elas, as ilus\u00f5es, podem ocupar um lugar privilegiado no tratamento porque n\u00e3o s\u00e3o necessariamente falsas, irrealiz\u00e1veis ou contr\u00e1rias \u00e0 realidade, como diz Freud. Dessas postula\u00e7\u00f5es podemos concluir que haveria nas ilus\u00f5es uma efic\u00e1cia que pode ser alcan\u00e7ada, resta poder ouvi-las.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<hr \/>\n<h6>Refer\u00eancias:<\/h6>\n<h6>FREUD, S. (1927). O futuro de uma ilus\u00e3o. <em>In<\/em>: FREUD, S. <em>Edi\u00e7\u00e3o standard brasileira das obras psicol\u00f3gicas completas de Sigmund Freud. <\/em>v. XXI. Rio de Janeiro: Imago,1996.<\/h6>\n<h6>LACAN, J. (1972). O aturdito.<em> In<\/em>: LACAN, J. <em>Outros escritos<\/em>. Rio de Janeiro: Zahar, 2003.<\/h6>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h6><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\"><sup>[1]<\/sup><\/a> Sigmund Freud, Cultura, sociedade, religi\u00e3o: O mal-estar na cultura e outros escritos. BH, Aut\u00eantica, 2023 (Obras incompletas de Sigmund Freud),\u00a0pp\u00a0263-64.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\"><sup>[2]<\/sup><\/a> Leonardo Gorostiza, <em>Sobre la alucinaci\u00f3n\u201d,<\/em> 1995, p. 128. Em: Silvia, E Tendlarz:\u00a0 <em>An\u00e1lisis de las alucinaciones. <\/em>Buenos Aires, Paid\u00f3s, 1995.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref3\" name=\"_ftn3\"><sup>[3]<\/sup><\/a> Idem<em>, O aturdito <\/em>em Outros escritos, Zahar, Rio de Janeiro 2003. P448.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref4\" name=\"_ftn4\"><sup>[4]<\/sup><\/a>\u00a0 Jacques Lacan, <em>O semin\u00e1rio livro 20 mais ainda<\/em>, Zahar, Rio de Janeiro, 2003, p.108<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref5\" name=\"_ftn5\"><sup>[5]<\/sup><\/a> Honor\u00e9 de Balzac, <em>Ilus\u00f5es perdidas. <\/em>Volume VII da Comedia Humana.<\/h6>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Mirta Zbrun &nbsp; &nbsp; \u201cO que permanece caracter\u00edstico da ilus\u00e3o \u00e9 a deriva\u00e7\u00e3o de desejos humanos, e nesse aspecto ela se aproxima da ideia delirante na Psiquiatria, mas tamb\u00e9m se aparta dela, sem considerar a constru\u00e7\u00e3o mais complicada da ideia delirante. 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