{"id":57687,"date":"2023-09-11T14:58:33","date_gmt":"2023-09-11T17:58:33","guid":{"rendered":"https:\/\/jornadasebprioicprj.com.br\/2023\/?p=57687"},"modified":"2023-09-11T15:00:56","modified_gmt":"2023-09-11T18:00:56","slug":"ato-de-poesia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/jornadasebprioicprj.com.br\/2023\/ato-de-poesia\/","title":{"rendered":"Ato de poesia"},"content":{"rendered":"<h6><span style=\"color: #ff0000;\">\u25fc<\/span> Por Maricia Ciscato<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">[1]<\/a><\/h6>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>\u201c<em>A conting\u00eancia, eu a encarnei no \u2018para de n\u00e3o se escrever\u2019. Pois a\u00ed n\u00e3o h\u00e1 outra coisa sen\u00e3o encontro, o encontro no parceiro dos sintomas, dos afetos, de tudo que, em cada um, marca o tra\u00e7o do seu ex\u00edlio, (&#8230;), do seu ex\u00edlio da rela\u00e7\u00e3o sexual. N\u00e3o \u00e9 o mesmo que dizer que \u00e9 somente pelo afeto que resulta dessa hi\u00e2ncia que algo se encontra (&#8230;) que, por um instante, d\u00e1 a ilus\u00e3o de que a rela\u00e7\u00e3o sexual \u2018para de n\u00e3o se escrever\u2019?\u201d (&#8230;) Todo amor, por s\u00f3 subsistir pelo \u2018para de n\u00e3o se escrever\u2019, tende a fazer passar a nega\u00e7\u00e3o ao \u2018n\u00e3o para de se escrever\u2019, n\u00e3o para, n\u00e3o parar\u00e1. Tal \u00e9 o substituto que (&#8230;) constitui o destino e tamb\u00e9m o drama de todo amor.<\/em>\u201d (Lacan, J. Semin\u00e1rio 20, Zahar 1985, pp 198-99)<\/p>\n<p>Sob demanda da coordena\u00e7\u00e3o da comiss\u00e3o cient\u00edfica das nossas 30as Jornadas, me deparei com esse trechinho de Lacan no Semin\u00e1rio 20, enviado a mim para tecer um breve coment\u00e1rio, algo r\u00e1pido. Com o pouco tempo em jogo, eu n\u00e3o poderia me debru\u00e7ar na leitura do cap\u00edtulo todo, desdobrada em textos de apoio e outros autores, como seria meu modo comum de operar diante do compromisso de leitura de um texto de Lacan. Como responder ent\u00e3o? Li por diversas vezes o trechinho, em momentos diferentes, ao longo dos tr\u00eas dias de que dispus, incluindo o final de semana. Deixei as frases ressoando em outras leituras que venho fazendo, deixei que trabalhassem por conta, as leituras em mim. N\u00e3o, n\u00e3o seria eu a interpretar o trechinho. Seria ele a me interpretar.<\/p>\n<p>Necessidade, imposs\u00edvel e conting\u00eancia, amor e ilus\u00e3o, o que n\u00e3o cessa de se escrever, o que n\u00e3o cessa de n\u00e3o se escrever e o que cessa de n\u00e3o se escrever, a leitura, a escrita, a an\u00e1lise&#8230; O \u201cponto de cessa\u00e7\u00e3o\u201d. Havia lido, poucos dias antes, a bela express\u00e3o cunhada por Jean-Claude Milner: \u201cponto de cessa\u00e7\u00e3o\u201d<a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\">[2]<\/a>, ao qual ele articula um ato, o \u201cato da poesia\u201d. J\u00e1 n\u00e3o estamos no \u201cponto de basta\u201d em que a met\u00e1fora do NP nos possibilita uma parada diante da demanda do Outro; uma outra terra \u00e9 pisada, sem as balizas paternas a nos orientar. Encontrei, ent\u00e3o, meu ponto de articula\u00e7\u00e3o com o trechinho de Lacan me ofertado pelas Jornadas.<\/p>\n<p>A conting\u00eancia em que \u2013 mesmo que por um tempo apenas, um tempo breve ou um tempo mais extenso, mas um tempo apenas \u2013 o que n\u00e3o cessa de n\u00e3o se escrever se poetiza pode se dar em um encontro amoroso?<\/p>\n<p>O modo como chegamos a amarrar nossa extimidade exige certamente um passo al\u00e9m do \u00f3dio a si, ao Outro em cada um de n\u00f3s. Exigiria, portanto, tamb\u00e9m uma certa rela\u00e7\u00e3o com o amor (seria essa a rela\u00e7\u00e3o um pouco \u201cmais digna\u201d que gostamos de mencionar)?<\/p>\n<p>A n\u00e3o exist\u00eancia da rela\u00e7\u00e3o sexual n\u00e3o para e n\u00e3o parar\u00e1 de se impor, nos incita Lacan. O ponto de cessa\u00e7\u00e3o que nos interessa n\u00e3o equivale, portanto, de modo algum, a qualquer inscri\u00e7\u00e3o da rela\u00e7\u00e3o sexual. O que se escreve ent\u00e3o? A poesia me d\u00e1 uma pista: O que se escreve \u00e9 o que permite que cesse, por um momento, a ilus\u00e3o de que necessitamos fazer existir a rela\u00e7\u00e3o sexual para viver o amor. E, nesse instante, o po\u00e9tico, n\u00f3s o experimentamos em sua inscri\u00e7\u00e3o mais absurda, radical e viva, estranheza. <em>Nos<\/em> experimentamos em nossa mais absurda, radical e viva estranheza. S\u00f3 por um tempo, mas, que, em uma vida, tal como em uma poesia, pode nos levar ao encontro de rimas e combina\u00e7\u00f5es e nos fazer navegar por trilhas antes insuspeitas, em n\u00f3s, n\u2019Outro.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<hr \/>\n<h6><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> Agrade\u00e7o a Ana Tereza Groisman e Marcus Andr\u00e9 Vieira, pelas \u00faltimas conversas para-l\u00ea-las, a elas, as po\u00e9ticas lacanianas.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">[2]<\/a> Milner, J.C. O amor da l\u00edngua. S\u00e3o Paulo: Editora da Unicamp, 2012. P. 39.<\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u25fc Por Maricia Ciscato[1] &nbsp; &nbsp; \u201cA conting\u00eancia, eu a encarnei no \u2018para de n\u00e3o se escrever\u2019. 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