{"id":57628,"date":"2023-08-14T09:51:00","date_gmt":"2023-08-14T12:51:00","guid":{"rendered":"https:\/\/jornadasebprioicprj.com.br\/2023\/?p=57628"},"modified":"2023-08-15T13:25:57","modified_gmt":"2023-08-15T16:25:57","slug":"iludir-se-ilusionar-se-ainda","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/jornadasebprioicprj.com.br\/2023\/iludir-se-ilusionar-se-ainda\/","title":{"rendered":"Iludir-se <em>[ilusionar-se]\/<em>, ainda"},"content":{"rendered":"<section class=\"wpb-content-wrapper\"><p>[vc_row full_width=&#8221;stretch_row&#8221; row_type=&#8221;main-section&#8221; wr_background_color=&#8221;#0a0a0a&#8221; wr_background_img=&#8221;55&#8243;][vc_column css=&#8221;.vc_custom_1691090958120{background-color: #1d1717 !important;}&#8221;][vc_single_image image=&#8221;51&#8243; img_size=&#8221;full&#8221; alignment=&#8221;right&#8221;][\/vc_column][\/vc_row][vc_row][vc_column width=&#8221;2\/3&#8243;][vc_empty_space][vc_empty_space][vc_column_text]<\/p>\n<h3><\/h3>\n<h2><span style=\"color: #ff0000;\">\u25fc<\/span><strong>Iludir-se [<em>ilusionar-se<\/em>], ainda<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\"><sup>[1]<\/sup><\/a><\/strong><\/h2>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h5 style=\"text-align: left;\"><span style=\"color: #ff0000;\">\u25fc <\/span><strong><em>Marina Recalde<\/em><\/strong><\/h5>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Agrade\u00e7o muit\u00edssimo o convite \u00e0 Sarita Gelbert e, atrav\u00e9s dela, \u00e0s autoridades e ao Comit\u00e9 Organizador, n\u00e3o apenas pelo prazer de trabalhar com voc\u00eas uma vez mais, como tamb\u00e9m porque o tema das pr\u00f3ximas jornadas me parece precioso. Como sucede nesses casos, quando algu\u00e9m \u00e9 convidado a falar de um tema, imediatamente a gente se coloca a reunir refer\u00eancias que j\u00e1 havia lido, mas que voltam a ter uma segunda leitura, ou ainda vamos a refer\u00eancias novas, que sempre resultam muito enriquecedoras.<\/p>\n<p>Foi o que aconteceu comigo com o tema da ilus\u00e3o. O primeiro impacto sobre mim foi a pergunta: por que renunciar \u00e0 ilus\u00e3o? Se nos curamos disso o que resta? Queremos nos curar disso? O que seria nos curarmos da ilus\u00e3o? Ent\u00e3o, decidi intitular esta abertura: <em>iludir-se, ainda<\/em>.<\/p>\n<p>Por que iludir-se, <em>ainda<\/em>? Desde o in\u00edcio j\u00e1 aponto o <em>Semin\u00e1rio 20<\/em> como guia, em que Lacan fala, entre outras coisas, do amor.<a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\"><sup>[2]<\/sup><\/a><\/p>\n<p>Ent\u00e3o, vou alternar entre o <em>Semin\u00e1rio<\/em> <em>20<\/em> e o <em>Semin\u00e1rio 8<\/em>, sobre a transfer\u00eancia, pois \u00e9 nesse semin\u00e1rio que Lacan fala do amor, tomando <em>O Banquete<\/em>, de Plat\u00e3o como refer\u00eancia. N\u00e3o \u00e9 uma refer\u00eancia de passagem, j\u00e1 que mais da metade do semin\u00e1rio est\u00e1 dedicada a esse texto. Em seguida, tomarei um exemplo cl\u00ednico, extra\u00eddo de uma pontua\u00e7\u00e3o que faz \u00c9ric Laurent do \u00faltimo testemunho de S\u00edlvia Salman, intitulado \u201cSutilezas do feminino\u201d.<\/p>\n<p>No <em>Semin\u00e1rio 8<\/em>, em um percurso pelos diferentes discursos sobre o amor extra\u00eddos do texto de Plat\u00e3o, Lacan ressalta o discurso de Arist\u00f3fanes. Erix\u00edmaco previne Arist\u00f3fanes para que n\u00e3o lhe fa\u00e7a zombaria<\/p>\n<p>\u201ccaro amigo Arist\u00f3fanes, cuidado com o que fazes. Zombas de mim quando vais falar e me obrigas assim a vigiar o teu discurso, pois n\u00e3o quero rir de voc\u00ea podes muito bem falar em paz\u201d (p. 69).<\/p>\n<p>O discurso de Arist\u00f3fanes \u00e9 talvez a parte mais conhecida do <em>Banquete<\/em> e apresenta uma estrutura interna muito mais elaborada que as demais, \u00e9 uma narrativa com as consequ\u00eancias do que \u00e9 relatado. Encontramos, ali, o mito que relata os avatares, as vicissitudes da natureza humana. No princ\u00edpio, os seres humanos tinham dois corpos, quatro pernas, quatro bra\u00e7os e duas cabe\u00e7as com a particularidade de que cada rosto se orientava em dire\u00e7\u00e3o a lados opostos. Tinham tr\u00eas g\u00eaneros: masculino-masculino, feminino-feminino e masculino-feminino (os andr\u00f3ginos). Essa multiplicidade de extremidades lhes deu um poder imenso, excederam-se, com o que se tornaram perigosos. Por isso, Zeus decidiu dividi-los em duas metades. Mas cada metade ansiava pela outra metade. Zeus ent\u00e3o decide que a forma de procria\u00e7\u00e3o passaria a ser diferente. Em vez de depositar a semente na Terra, v\u00e3o acoplar-se e por isso cada um vai buscar sua outra metade: Eros faz, de dois, um. Ao encontrarem-se essas duas metades surgem o amor e a alegria. A primeira consequ\u00eancia evidente \u00e9 que o amor \u00e9 a busca da unidade. Por outro lado, sempre \u00e9 Eros. Al\u00e9m disso, o homem busca a satisfa\u00e7\u00e3o pulsional, por\u00e9m, al\u00e9m disso, algo que n\u00e3o sabem precisar (o amor). Os problemas com rela\u00e7\u00e3o ao amor surgiram pela <em>hybris<\/em>, ou seja, o excesso diante dos deuses.<\/p>\n<p>Isso quer dizer que o excesso levou ao castigo e que o romanticismo reaparece no reencontro. O encontro \u00e9 poss\u00edvel, a unidade afirma a rela\u00e7\u00e3o sexual. O amor segue sendo um enigma, no entanto, e dessa separa\u00e7\u00e3o restar\u00e1 um lembrete: as rugas e o umbigo. \u00c9 um modo interessante de pensar o testemunho perp\u00e9tuo da castra\u00e7\u00e3o decidida por Zeus. H\u00e1 algo ali, que no pr\u00f3prio discurso de Arist\u00f3fanes j\u00e1 indica que a completude est\u00e1 perdida para sempre. Ainda que se tente sutur\u00e1-la, sempre resta o lembrete nas rugas e no umbigo.<\/p>\n<p>Esse ponto me parece crucial e foi assim o que pude escutar da leitura que faz Miller desse ponto, na qual destaca exatamente isto que digo, apenas o l\u00ea em termos de zombaria. De uma burla de Arist\u00f3fanes. Diz Miller:<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px;\">\u201c&#8230; posso referir-me ao mito de Arist\u00f3fanes no <em>Banquete<\/em> de Plat\u00e3o, retomado no semin\u00e1rio <em>A Transfer\u00eancia<\/em>, onde se trata de seres de dois sexos divididos em dois que depois passam a vida tratando de recompor o Um inicial, buscando sua metade pelo mundo. Sem d\u00favida, este mito de Arist\u00f3fanes \u00e9 apresentado como c\u00f4mico, ainda que tenha sido tomado por s\u00e9culos como um mito s\u00e9rio, como o ideal do amor. Ao contr\u00e1rio, zomba-se do um fusional neste mito. O Uno amoroso resultaria do enganche dos dois parceiros como chave e fechadura\u201d.<\/p>\n<p>No <em>Semin\u00e1rio 20<\/em>, Lacan volta abordar o tema do amor, mas lhe d\u00e1 uma volta a mais, quando localiza debaixo das roupagens o objeto <em>a<\/em>, assinala que o amor \u00e9 o desejo de ser Uno e que Eros \u00e9 tamb\u00e9m tens\u00e3o em dire\u00e7\u00e3o ao Uno. N\u00e3o diz que Eros consegue, s\u00f3 indica a tend\u00eancia. Ou seja, ele \u00e9 impotente para realizar isso. N\u00e3o h\u00e1 complementariedade entre o Um e o Outro, porque definitivamente s\u00e3o duas solid\u00f5es que se unem, com o limite que o ex\u00edlio, que cada um \u00e9, imp\u00f5e ao la\u00e7o.<\/p>\n<p>Ao final de <em>Mais, ainda<\/em>, vemos o estatuto de espelhamento que d\u00e1 Lacan a esse tipo de amor. Ele diz<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px;\">\u201dn\u00e3o h\u00e1 ali nada al\u00e9m do encontro, encontro em um casal, dos sintomas, dos afetos, de tudo que marca para cada um o vest\u00edgio do seu ex\u00edlio, n\u00e3o como sujeito, mas como falante, de seu ex\u00edlio da rela\u00e7\u00e3o sexual. Ser\u00e1 que isso n\u00e3o quer dizer que \u00e9 somente pelo afeto que resulta desta hi\u00e2ncia que se pode encontrar algo que, por um instante, d\u00e1 a <em>ilus\u00e3o<\/em> de que a rela\u00e7\u00e3o sexual <em>cessa de n\u00e3o se escrever<\/em>? Ilus\u00e3o de que algo n\u00e3o apenas se articula como tamb\u00e9m se inscreve, pelo qual, durante um tempo de suspens\u00e3o, o que seria a rela\u00e7\u00e3o sexual encontra no ser falante sua marca e sua via de espelhamento?\u201d (p. 175).<\/p>\n<p>Ilus\u00e3o ou engano num tempo de suspens\u00e3o, num instante, que esse amor pode escrever a rela\u00e7\u00e3o sexual e tamponar o real&#8230;<\/p>\n<p>Se tomei o <em>Semin\u00e1rio 8<\/em> \u00e9 precisamente porque quis pens\u00e1-lo como um antecedente do <em>Semin\u00e1rio 20<\/em>,\u00a0 nesse ponto que Lacan enfatiza do discurso de Arist\u00f3fanes (e que a leitura de Arist\u00f3fanes como deboche, feita por Miller s\u00f3 faz confirmar). Ao mesmo tempo porque o <em>Semin\u00e1rio 8<\/em> \u00e9 um semin\u00e1rio sobre a transfer\u00eancia, sobre a qual gostaria &#8211; se tiver tempo &#8211; de conversar um pouco.<\/p>\n<p>Nessa perspectiva, gostaria de tomar uma frase destacada por \u00c9ric Laurent no \u00faltimo testemunho de S\u00edlvia Salman, que para mim foi chave quando preparava este texto para hoje e que me parece um enorme ensinamento para todos, para al\u00e9m, inclusive, no caso de S\u00edlvia.<\/p>\n<p>Lembro a voc\u00eas, ela situa o que chama uma \u201csutil erotomania\u201d que a an\u00e1lise permitiu esculpir. A partir de uma interpreta\u00e7\u00e3o do analista (\u201cn\u00e3o h\u00e1 que se perder o encanto\u201d) essa forma erotoman\u00edaca do amor foi abalada. Essa interpreta\u00e7\u00e3o permitiu a ela assim advertir-se daquilo de que convinha desprender-se com rela\u00e7\u00e3o ao uso fantasm\u00e1tico que fazia atrav\u00e9s do sintoma, uso de ser fugidia e de fazer se agarrar para poder fugir, tentando assim a cada vez fazer existir a rela\u00e7\u00e3o sexual e, ao mesmo tempo, fugir do que era preciso preservar, uma vez desligada, uma vez separada desse modo ed\u00edpico de amar. Foi o que Laurent interpretou, como uma sutil erotomania, quando S\u00edlvia leu seu testemunho. Dar-lhe esse toque, acrescentando o sutil, indica aquilo que ficou como resqu\u00edcio dessa erotomania que comandava a sua vida. J\u00e1 n\u00e3o \u00e9 erotomania, agora \u00e9 &#8220;sutil&#8221;, indicando precisamente outro uso.<\/p>\n<p>Gostei do termo <em>sutil<\/em> precisamente porque d\u00e1 conta da dimens\u00e3o inelimin\u00e1vel desta ilus\u00e3o, da qual, mesmo quando se est\u00e1 estando advertido, n\u00e3o deixa de ressoar em um determinado empuxo, que n\u00e3o cessa com a tentativa de velamento.<\/p>\n<p>\u00c9 uma frase que evoca tamb\u00e9m o Lacan do <em>Semin\u00e1rio 11 <\/em>quando se pergunta pelo amor no final de an\u00e1lise e o situa em termos de <em>um amor para al\u00e9m dos limites da lei<\/em>. Poder\u00edamos dizer, para al\u00e9m da lei ed\u00edpica. Dessa forma, plenamente articulado \u00e0 repeti\u00e7\u00e3o, esse amor, al\u00e9m dos limites da lei, sai do circuito da repeti\u00e7\u00e3o e vem se localizar na conting\u00eancia. \u00c9 o que a seguir Lacan situar\u00e1 em termos de <em>um amor mais digno<\/em>. Penso que podemos dizer que \u00e9 este amor constru\u00eddo sobre a sua pr\u00f3pria castra\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O que quer dizer isso? Um amor fora dos limites da lei? \u00c9 um amor que n\u00e3o precisa velar que a rela\u00e7\u00e3o sexual n\u00e3o existe? \u00c9 um amor que n\u00e3o precisa se iludir aqui e ali?<\/p>\n<p>Gostaria de trazer, ent\u00e3o, algo que para mim foi impactante, para poder ir avan\u00e7ando na conversa\u00e7\u00e3o sobre esse par\u00e1grafo que tem, em meu entender, uma riqueza enorme.<\/p>\n<p>H\u00e1 alguns dias, aconteceu na EOL uma conversa\u00e7\u00e3o pelo zoom com Jacques-Alan Miller quando da apresenta\u00e7\u00e3o do livro <em>Como terminam as an\u00e1lises<\/em>. Nessa ocasi\u00e3o, com rela\u00e7\u00e3o a uma pergunta sobre o amor mais digno no final da an\u00e1lise, Miller re-perguntou: por que h\u00e1 que se fazer do amor algo mais digno? Ou seja, em que o amor \u00e9 indigno? E ele situou que o amor \u00e9 indigno quando se reduz a falat\u00f3rios sobre o Uno, o Uno unitivo. Um amor, poder\u00edamos dizer, totalmente sustentado na ilus\u00e3o desse Uno que Miller chama \u201ca estupidez do amor unitivo\u201d. Estupidez porque reside \u201cno apagamento, na nega\u00e7\u00e3o da experi\u00eancia efetiva que nos ensinam os fracassos ordin\u00e1rios cotidianos da rela\u00e7\u00e3o sexual\u201d, e esclarece que talvez n\u00e3o sejam fracassos e sim dificuldades.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px;\">\u201cNeste discurso \u2013 dizia &#8211; que \u00e9 indigno e rid\u00edculo, oposto a todo pensamento digno. Assim, sabemos qual \u00e9 o fundamento do amor indigno, \u00e9 a cren\u00e7a na exist\u00eancia da rela\u00e7\u00e3o sexual. Prescindir desta rela\u00e7\u00e3o nefasta &#8211; escreve Lacan &#8211; constituiria um amor mais digno que o bl\u00e1-bl\u00e1-bl\u00e1 infatig\u00e1vel do amor unitivo. O amor s\u00f3 pode recuperar sua dignidade atrav\u00e9s do saber, o amor n\u00e3o \u00e9 nada mais que supl\u00eancia da rela\u00e7\u00e3o sexual na medida em que ela n\u00e3o existe\u201d.<\/p>\n<p>E continua:<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px;\">\u201dde que tipo \u00e9 esta supl\u00eancia? Segundo Freud a imagin\u00e1ria. Todo amor \u00e9 narcisista em seu fundamento. Quer dizer, cada um ama a si mesmo atrav\u00e9s do outro. Mas o amor freudiano n\u00e3o permite sair de si mesmo. O outro do amor se reduz ao eu. N\u00e3o \u00e9 assim com Lacan, pelo menos o Lacan do <em>Semin\u00e1rio 20<\/em>. O amor re\u00fane dois parceiros, cada um de fora, exilado da rela\u00e7\u00e3o sexual que n\u00e3o existe e que deixa cada ser falante em sua solid\u00e3o, fora o espelhamento narc\u00edsico. O amor n\u00e3o \u00e9 nada al\u00e9m que um encontro aleat\u00f3rio entre duas solid\u00f5es (&#8230;) que reconhecem no outro os afetos que resultam da maneira pela qual cada um suporta seu ex\u00edlio da rela\u00e7\u00e3o sexual &#8211; \u00e9 quase uma cita\u00e7\u00e3o de <em>Mais, ainda<\/em>. \u00c9 uma ilus\u00e3o? Sim, mas que se refere ao real, ao real da inexist\u00eancia da rela\u00e7\u00e3o sexual. O amor parece suspender o real imposs\u00edvel da rela\u00e7\u00e3o sexual e dar a ela exist\u00eancia. Assim trata-se no amor de um par\u00eanteses no imposs\u00edvel. Um par\u00eanteses que resulta da conting\u00eancia de um encontro. Isso se traduz na teoria lacaniana pelas modalidades: o imposs\u00edvel, como aquilo que n\u00e3o cessa de n\u00e3o se escrever est\u00e1 suspenso por uma conting\u00eancia que cessa de n\u00e3o se inscrever. A conting\u00eancia \u00e9 o contr\u00e1rio, nesta teoria, do imposs\u00edvel, n\u00e3o da necessidade &#8211; isso \u00e9 pr\u00f3prio de Lacan &#8211; da necessidade enquanto n\u00e3o cessa de escrever-se. N\u00e3o h\u00e1 amor necess\u00e1rio que n\u00e3o seja fantasm\u00e1tico\u201d.<\/p>\n<p>Como vemos \u00e9 um par\u00e1grafo muito bonito, pleno de quest\u00f5es das quais gostaria de me servir para hoje.<\/p>\n<p>A neurose, a pleno vapor, tenta pela via do amor escrever o que n\u00e3o cessa de n\u00e3o se escrever, ou seja, a rela\u00e7\u00e3o sexual que n\u00e3o existe. Vejamos agora: levar uma an\u00e1lise at\u00e9 o final implica ter podido contingentemente, escrever \u201calgo&#8221; disso que n\u00e3o cessa de n\u00e3o se escrever (apesar de tentar faz\u00ea-lo). Ent\u00e3o, no entanto, algo se escreve. O que n\u00e3o cessa, ent\u00e3o, de tentar falhadamente de escrever a rela\u00e7\u00e3o sexual, que localiza o sujeito agarrado nas ordens superegoicas, que o impele repetidamente a enredar-se nos emaranhados &#8211; dignos, mas dif\u00edceis &#8211; do gozo f\u00e1lico, regando e nutrindo o sintoma e a fantasia.<\/p>\n<p>Por outro lado, outra perspectiva: o que n\u00e3o cessa. \u00c9 a dimens\u00e3o da puls\u00e3o, uma vez que se elucidou o fantasma e o <em>pathos<\/em> do sintoma, que permite pensar um novo destino para essa constante pulsional, que tampouco cessa, mas que em certo sentido permite que algo cesse de n\u00e3o se escrever, conting\u00eancia que possibilita saltar a necessidade, aquela que empuxa para a repeti\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Ponto de chegada que permite diferenciar que o real n\u00e3o \u00e9 mais somente o imposs\u00edvel, mas o contingente, modo como Miller situava que aquilo que \u201ccessa de ser imposs\u00edvel, cessa de n\u00e3o se escrever\u201d. Ou seja, algo se escreve. Mesmo que apenas por um momento, \u00e9 algo que \u00e9 escovado, soprado, alcan\u00e7ado e&#8230; depois volta a n\u00e3o ser escrito. Como disse o meu amigo Marcus (a quem agrade\u00e7o a tradu\u00e7\u00e3o) dura o tempo que dura. E \u00e9 assim que as coisas s\u00e3o. Um real como contingente mais que imposs\u00edvel. Bela f\u00f3rmula de safra milleriana, que permite ajustar ainda mais a perspectiva do <em>sinthoma<\/em> com a l\u00f3gica do n\u00e3o-todo.<\/p>\n<p>Express\u00f5es contingentes ent\u00e3o da l\u00f3gica do n\u00e3o-todo que permitem um novo modo de evitar a fixa\u00e7\u00e3o da fun\u00e7\u00e3o f\u00e1lica. J\u00e1 que o que \u00e9 o falo se n\u00e3o aquele que se situa entre homens e mulheres indicando que a rela\u00e7\u00e3o sexual, ou seja, a propor\u00e7\u00e3o, n\u00e3o existe, mas que paradoxalmente intenta dar uma medida que suporia evitar o mal entendido, quando na realidade n\u00e3o faz nada al\u00e9m de nos desencontrar?<\/p>\n<p>N\u00e3o menosprezemos, por\u00e9m. Tal como nos recorda Lacan (em Decolagem)<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px;\">\u201cisso n\u00e3o significa que (as mulheres) n\u00e3o possam ter, com um s\u00f3, eleito por elas, a satisfa\u00e7\u00e3o verdadeira-f\u00e1lica (&#8230;). Para isso \u00e9 preciso que [ela] acerte. Que acerte com o homem que lhe fale segundo sua fantasia fundamental, a dela (&#8230;). N\u00e3o ocorre muito frequentemente\u201d.<\/p>\n<p>N\u00e3o ocorre t\u00e3o frequentemente ent\u00e3o, mas ocorre. N\u00e3o subestimemos esses encontros.<\/p>\n<p>Se a an\u00e1lise ensina alguma coisa (ao menos no meu caso, entre outras coisas, foi) \u00e9 que, h\u00e1 algum modo poss\u00edvel de amar e ser amada de outra maneira, ou de, ao menos ro\u00e7ar essa borda. Foi a virada que encontrei. Modo imperfeito, claro, mas que permite sair da pergunta neur\u00f3tica atormentadora, que sup\u00f5e localizar no Outro o interrogante sobre seu pr\u00f3prio ser.<\/p>\n<p>Ou seja, tomar a vitalidade que me constitu\u00eda, nas suas duas faces (isto \u00e9, como um golpe de vida que vivifica um corpo nas suas duas dimens\u00f5es: do tremor aterrorizado e sofredor e daquele que \u00e9 o sinal de um corpo vivo) permitiu-me dizer que agora essa vitalidade tem um outro uso. Esse novo uso j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 o uso mortificante, mas aquele que agora insiste, implica dar um novo destino \u00e0 puls\u00e3o que n\u00e3o cessa. Por outras palavras, o dizer sempre sim foi sustentado no esfor\u00e7o de fazer existir a rela\u00e7\u00e3o sexual, capturado tamb\u00e9m no limite que o dizer sempre sim implica, face ao N\u00e3o do Outro. \u00c9 um modo que permanece enredado no sim e no n\u00e3o, que em cada neurose toma sua forma. Esse novo lugar vai para al\u00e9m do dizer sim ou n\u00e3o e permite-nos amar e ser amados de uma nova maneira. \u00c9 um dizer sim ou n\u00e3o sem o Outro. \u00c9 um haver, contra o pano de fundo do n\u00e3o haver.<\/p>\n<p>Claro que tenho as minhas ang\u00fastias, os meus excessos e as minhas dificuldades, mas de vez em quando&#8230; algo se escreve, na conting\u00eancia.<\/p>\n<p>Ou seja, \u00e9 uma nova libidiniza\u00e7\u00e3o, uma nova forma de amar, n\u00e3o mais ed\u00edpica, mas n\u00e3o sem resqu\u00edcios, que nos lembram que o n\u00e3o-todo \u00e9 escovado, soprado mas n\u00e3o alcan\u00e7ado. Uma indica\u00e7\u00e3o de que o real \u00e9 indom\u00e1vel. O desvio, sobretudo numa mulher, \u00e9 uma tenta\u00e7\u00e3o perigosa, que a castra\u00e7\u00e3o felizmente limita.<\/p>\n<p>Portanto, iludir-se, ainda.<\/p>\n<p>Iludir-se, ao menos um pouco, sabendo que &#8211; como recordava Miller &#8211; se trata de um par\u00eanteses, um <em>stop<\/em> no imposs\u00edvel. <em>Stop<\/em> que resulta da conting\u00eancia de um encontro. N\u00e3o ocorre em todos os encontros, apenas com alguns e de vez em quando. Aqueles encontros que permitem, de quando em vez, iludir-se ainda.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h5 style=\"text-align: right;\"><span style=\"color: #ff0000;\">\u25fc <\/span>Tradu\u00e7\u00e3o: Marcus Andr\u00e9 Vieira<\/h5>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h6><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\"><sup>[1]<\/sup><\/a> Ambos os termos s\u00e3o dicionarizados em portugu\u00eas, por\u00e9m, a penas o primeiro \u00e9 de uso corrente, como o ilusionar-se em espanhol.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\"><sup>[2]<\/sup><\/a> Este semin\u00e1rio em portugu\u00eas leva o t\u00edtulo \u201cMais, ainda\u201d, no original e em espanhol, apenas um termo, <em>encore <\/em>e<em> a\u00fan<\/em>, ainda.<\/h6>\n<p>[\/vc_column_text][vc_empty_space][\/vc_column][vc_column width=&#8221;1\/3&#8243;][\/vc_column][\/vc_row]<\/p>\n<\/section>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>[vc_row full_width=&#8221;stretch_row&#8221; row_type=&#8221;main-section&#8221; wr_background_color=&#8221;#0a0a0a&#8221; wr_background_img=&#8221;55&#8243;][vc_column css=&#8221;.vc_custom_1691090958120{background-color: #1d1717 !important;}&#8221;][vc_single_image image=&#8221;51&#8243; img_size=&#8221;full&#8221; alignment=&#8221;right&#8221;][\/vc_column][\/vc_row][vc_row][vc_column width=&#8221;2\/3&#8243;][vc_empty_space][vc_empty_space][vc_column_text] \u25fcIludir-se [ilusionar-se], ainda[1] &nbsp; &nbsp; \u25fc Marina Recalde &nbsp; Agrade\u00e7o muit\u00edssimo o convite \u00e0 Sarita Gelbert e, atrav\u00e9s dela, \u00e0s autoridades e ao Comit\u00e9 Organizador, n\u00e3o apenas pelo prazer de trabalhar com voc\u00eas uma vez mais, como tamb\u00e9m porque o tema das pr\u00f3ximas&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[519],"tags":[],"class_list":["post-57628","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-textos","category-519","description-off"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/jornadasebprioicprj.com.br\/2023\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/57628","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/jornadasebprioicprj.com.br\/2023\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/jornadasebprioicprj.com.br\/2023\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/jornadasebprioicprj.com.br\/2023\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/jornadasebprioicprj.com.br\/2023\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=57628"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/jornadasebprioicprj.com.br\/2023\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/57628\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":57631,"href":"https:\/\/jornadasebprioicprj.com.br\/2023\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/57628\/revisions\/57631"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/jornadasebprioicprj.com.br\/2023\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=57628"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/jornadasebprioicprj.com.br\/2023\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=57628"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/jornadasebprioicprj.com.br\/2023\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=57628"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}